Participação Especial – Um, nenhum e cem mil
por Poderoso
em 05/04/17

Por Raphael Pantet

A relação entre o ser humano e seu corpo, visível ou invisível, é tema recorrente na literatura mundial a ponto de ter algumas regras de gênero – frequentemente, um acontecimento banal faz com que o personagem se descubra em decadência ou abalado por sua descoberta, e empreende uma reflexão a  respeito do material de sua constituição. Temos na literatura nacional, como exemplo os contos irmãos  O Espelho, dos autores irmãos Machado de Assis e Guimarães Rosa. No caso de Luigi Pirandello não se trata de pessoas se descobrindo e metamorfoseando em frente ao espelho, mas sim de uma pequena observação da esposa do personagem principal, Vitangelo Moscarda.

Pirandello é dos autores mais conhecidos da literatura italiana moderna. Nascido na Sicília em 1867, romancista, dramaturgo e poeta, é reconhecido como um dos precursores do Teatro do Absurdo, embora esta obra seja um romance publicado em série à época. É simples perceber o motivo. Em Um, Nenhum e Cem Mil – publicado pela saudosa Cosac Naify na coleção Prosa do Mundo, com apresentação de Alfredo Bosi e entrevista concedida pelo autor a Sérgio Buarque de Hollanda – Vitangelo Moscarda, dono de uma vida comum, recebe um comentário incompreensível de sua esposa, Dida, ao avisá-lo que seu nariz pende um pouco para a direita. Alarmado por nunca ter percebido – Dida faz questão de reafirmar que sempre fora assim – Moscarda, na prosa árida, desértica de Pirandello, aos poucos se dá conta de não ser quem pensava, mas sim de existirem vários Moscardas vivos no olhar dos outros referente a si, a começar pelo Moscarda de Dida, a quem ela apelidou Gengê, de pronto rechaçado – até o sobrenome, mosca também é mosca em italiano, lhe dá asco.

A linguagem do autor é seca por boa parte do romance, e retira qualquer noção de estilo para dar vivacidade a crise do personagem, suas situações e pensamentos são narrados com lucidez, como uma investigação científica pelo método empírico. Ao mesmo tempo isso confere maior poder aos momentos cômicos da trama, embora Pirandello insista sem erro se tratar de uma tragédia. Em um dos mais engraçados e desesperadores o personagem conclui uma reflexão ao perceber que a liberdade de ser qualquer coisa é importante, mas de fato fundamental é a liberdade de não ser aquilo que se é. Confrontado com o fato de dezenas de Vintagelos Moscardas viverem na percepção de sua esposa, seus colegas de trabalho e conhecidos da cidade, opta por rejeitar a unicidade coerente com todos os Moscardas, verdadeiramente impossível, nem por aceitar Moscarda ou Gengê ou qualquer outro. Decide ser nenhum.

Como fechar um romance em que o personagem não quer a pecha de personagem embora, como Macedonio Fernández faria em seu Museu do Romance da Eterna, aja mais como personagem do que “pessoa de verdade”? O último capítulo recebeu o nome de “Sem Conclusão”. De forma apta. Ao provocar a eliminação de todos os Moscardas mundo afora, ao destruir todo o seu tecido social com o mundo, ao recusar o determinismo da rede de pesca dos cem mil, Vitangelo Moscarda encontra apenas a impermanência, as nuvens a passar lá no alto. Após o massacre de si, Vitangelo Moscarda e o leitor descobrem a poesia.

“Nenhum nome resta, nenhuma lembrança, hoje, do nome de ontem – ou do nome de hoje, amanhã. Se o nome é a coisa, se um nome é, em nós, o conceito de cada coisa situada fora de nós, e se, sem nome, não há o conceito, ficando em nós a coisa como cega, indistinta e indefinida, então que cada um grave aquele nome que eu tive entre os homens, entalhando-o como um epitáfio sobre a fronte daquela imagem com que lhes apareci, deixando-a em paz e relegando-a ao esquecimento. Um nome não é mais do que isso: um epitáfio. Convém aos mortos, aos que concluíram. Eu estou vivo e sem conclusão. A vida não tem conclusão – nem consta que saiba de nomes. Esta árvore, respiro trêmulo de folhas novas. Sou esta árvore. Árvore, nuvem. Amanhã, livro ou vento: o livro que leio, o vento que bebo. Tudo fora, errante.”

Postado em: Participação Especial, Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Participação Especial – Um, nenhum e cem mil”


 

Comentar