Participação Especial – Homens e não
por Poderoso
em 10/05/17

Por Raphael Pantet

Há um traço interessante na cultura italiana ao fim da Segunda Guerra Mundial, uma certa urgência de relatar os acontecimentos ainda no calor do instante, como uma tentativa de quebrar possíveis correntes de mediação das obras, ou uma tentativa de experimentar a realidade social do período de forma direta. Os principais expoentes disso são os filmes do Neorrealismo Italiano, filmados em cidades destruídas ou ainda ocupadas por forças estrangeiras como Roma, Cidade Aberta de Rossellini, e com pouquíssimos recursos. Homens e Não de Elio Vittorini pode ser uma espécie de precursor desse estilo de ver dentro da cultura italiana.

Autor do provável primeiro romance de resistência, Vittorini era militante partigiano e membro do Partido Comunista Italiano no norte do país. Escreveu a obra entre a primavera e o outono de 1944, enquanto as ações da luta armada eram respondidas com massacres e detenções em massa pelas forças de segurança italianas e alemãs – um dos momentos no livro parece ecoar o Massacre da Piazzale Loreto em 1944, onde foram expostos em público 15 corpos de resistentes fuzilados, o cadáver de Mussolini seria exibido um ano depois no mesmo local. Em Homens e Não – publicado pela saudosa Cosac Naify em tradução de Maria Helena Arrigucci – seguimos Ene 2, líder de um pequeno grupo dentro dos partigiani em Milão, responsável por planejar e executar alguns dos atos de sabotagem e assassinato contra as autoridades fascistas e seus adidos nazistas. Ene 2 tem um relacionamento submerso com Berta – mulher casada – e da qual guarda um “espectro” em seu quarto: um vestido, pendurado atrás de sua porta. Uma narrativa em paralelo trata de uma infância imaginada, identificada com letras em itálico, passada na Sicília junto com Berta – um jogo de palavras divertido é feito com a origem de Berta, o cantão de Ticino na Suíça, causador de confusão nos sicilianos que confundem “ticinese” (pronunciado titchinêse) com “cinese” (pronúncia igual excluindo o “ti”, significa chinês).

Admirador e tradutor de vários autores norte-americanos, Vittorini faz uso dos diálogos para avançar a trama e passar o clima de desconfiança no futuro de Ene 2 e seus companheiros. Imunes à ingenuidade, os personagens principais não se decidem a respeito de seus conflitos, Ene 2 parece dar pouco valor à vida, e por consequência à morte, e Berta deseja que ele não “se perca” embora não saiba se deve abandonar seu marido. Para mimetizar esta visão de uma vida danificada, as frases dos personagens são muitas vezes curtas, fraturadas como se nunca conseguissem chegar as suas palavras de fato – o próprio título parece faltar um complemento ao Não. Os poucos trechos narrativos no tempo presente são ásperos, como reforço a falta de perspectiva. São opções de linguagem coerentes, no entanto tal aridez torna a leitura as vezes cansativa, além de cair no risco de qualquer obra dependente dos diálogos: alguns não soam naturais e por isso causam estranhamento, e outros se tornam banais ao tentar mostrar banalidades. Ao final, o leitor pode considerar que o desgaste não traz recompensa – o autor opta por não dar um desfecho claro a nenhum dos arcos. Além disso, o fio narrativo da infância lírica peca por ficar no meio do caminho: apesar de a linguagem do presente milanês seja eficaz em evidenciar a destruição das ilusões, o lirismo do passado siciliano não torna a infância mítica o suficiente.

É essa a ocorrência do personagem principal: forçado a optar pelo amor ou política, opta pelos dois e por nenhum. Despido, Ene 2 não consegue fazer distinção entre ele e seus companheiros de luta, “homens”, e seus inimigos, os “não” cortados de forma escrita e visual no título do livro, como um raciocínio interrompido. É  como se Vittorini tivesse uma visão do que estaria por vir – representado em algumas belas imagens, como o cachorro-soldado relutante em seguir com seu treinamento; e o soldado alemão num bar de beira de estrada, visto como um operário por baixo do uniforme e salvo de ser morto por parecer “triste demais”. Uma ênfase maior nas imagens, numa linguagem ainda árida porém mais poética, menos subordinada aos diálogos para avançar a trama poderiam adensá-la sem perder sua prosa realista; nos versos de Eugenio Montale se encontra esta possibilidade sem prejuízo do objetivo da obra: “Daí o gesto se elide / cala-se a cada voz, / corre para a foz / a árida vida”. E tornar mais evidente como, dos destroços de uma Milão opressiva e cansada, Vittorini intuiu a segunda metade do século XX. E não sabe se gostou do sentimento.

“Passavam pelo corso Sempione e, caminhando sem dizer nada, Berta apontou um ponto distante.

‘Parece que são as montanhas.’

‘É mesmo? Estamos vendo: são as montanhas.’

‘Estamos vendo as montanhas de Milão?’

‘Não está vendo? Estamos.’

‘Não sabia que era possível vê-las daqui.’

‘Sabia que era minha mulher? Não sabia. Mas, na verdade, você é.’

‘Enquanto não sabia, não era.’

‘Mas, na verdade, você era.’

(…) ‘Sempre foi’, ele disse a ela.

(…) ‘Você não foi sempre?’, disse Ene 2. ‘Sempre foi’.

Tirou o vestido de mulher que estava atrás da porta.

‘Não vê seu vestido? Não vê que sempre foi?’

‘E as montanhas?’, Berta perguntou. ‘Você sempre as viu?’

‘Sempre.’

‘E os mortos?’

‘Estiveram sempre aqui.’

‘E os olhos azuis?’

‘Os olhos azuis?’

‘De quem você sempre me falou que tinha os olhos azuis? Era seu pai? Estavam na sua infância?’

‘Eram você mesma.’

‘Os olhos de seu pai eram eu mesma?’

‘Você mesma, a minha infância.’

‘Eu também a sua infância?’

‘Você em cada coisa. Foi cada uma das minhas coisas, e é.’

‘Sou?’

‘É cada coisa que foi e que é.’

‘E sua mulher?’

‘Minha mulher. Minha avó e minha mulher. Minha mãe e minha mulher. A minha menina e minha mulher. As montanhas e minha mulher…’

‘E com aquele homem?’, disse Berta. ‘O que fui com aquele homem?’

‘Por que deve ter sido qualquer coisa para aquele homem?’

‘Qualquer coisa eu fui. Por que estive com ele? O que fui?’

‘Sss’, disse Ene 2. ‘Por que quer pensar nisso?’

‘Então vamos fazer a comida.’”

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