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Participação Especial – Objecto Quase
por Poderoso
em 06/06/18

 

Por Rosário Silva: Instagram @clioecaliope

Somos um grupo de leitoras e leitores que pretendem ler um livro de Saramago ao mês. Usamos a #saramagoentrenós para nos encontrar e partilhar impressões.

Objecto quase, publicado em 1978, reúne seis contos do escritor português José Saramago. Livro curto, nem chega a cento e cinquenta páginas, mas o ritmo da leitura é quase sempre lento. Atentem para o estilo da escrita, que nos evoca o Saramago dos livros publicados na década de 1980: Memorial do Convento e A Jangada de Pedra; atentem para a epígrafe (que não é aleatória); atentem para o uso que o autor faz das palavras; atentem para as aproximações e os distanciamentos entre um conto e outro. Notem, também, que os personagens não têm nome, quando nomeados, o nome tem mais relação com a função que desempenha, do que com um substantivo próprio. O espaço e o tempo não são fixos, nem estáveis.

Não é um livro que se ajuste facilmente ao nosso desejo de sínteses e resumos, pois cada conto daria uma resenha. Cada conto rende-nos dias de reflexões. Por coincidência ou ironia, para seguir como o projeto #saramagoentrenós, escolhemos ler esse livro, neste mês que finda, maio de 2018. Leiam Embargo e tirem suas conclusões.

Mas vamos lá, meu desejo é atiçar o desejo de vocês, leitores e leitoras, para que saiam em busca do livro e leiam! Aqui, vale um aviso: cuidado com as cadeiras em que vão sentar quando estiverem distraídos, lendo.

Cadeira, o primeiro conto, começa assim: “a cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não no rigor do termo, a desabar”. E até que a cadeira caia e que compreendamos porque diabos ela cai, o narrador, mancomunado com o cineasta que grava imagens em câmera lenta, distrai-nos entre digressões e descrições. Sentimo-nos angustiados, diante da queda adiada. A queda da cadeira pode ser metafórica, mas é física e é política. O conto é sobre a cadeira que fez cair o ditador Salazar, literalmente. Como se estivéssemos no cinema, vendo uma fita em preto e branco, temos diante de nós três personagens: a cadeira, o velho e o cupim. Anobium, o cupim, alçado à condição de herói anônimo, invisível e persistente acabou derrubando o ditador, fechando um ciclo.

Embargo, o segundo conto. É marcado pela relação homem e máquina ou pela alienação humana diante das máquinas. No começo há um homem que acorda com “a sensação de um sonho degolado” – lembrei-me de Kafka – que tem diante de si a perspectiva de um dia normal de trabalho: sai de casa, entra no carro e toma o caminho do escritório. Tudo parece normal, mas há o embargo, os postos de gasolina estão repletos de enormes filas. Pessoas acorrem de todos os lados para garantir que não ficarão com os tanques vazios. O automóvel rebela-se. O resto do conto é sobre a angústia do homem diante das vontades do automóvel.

Refluxo, o terceiro conto. É sobre um rei e seu desejo de afastar a morte de seu reinado, ou de suas vistas. Decreta que a indesejada, seja banida. Para este fim, ele manda construir um cemitério de proporção gigantesca. Para lá, todos os mortos deverão ser enviados. Os recentes e os antigos. Mas o novo cemitério, à revelia do poder real, transforma a geografia do reino e quatro novas cidades surgem e crescem nos arredores do cemitério. A experiência tem mostrado que o trabalho do tempo não obedece aos decretos reais, e assim, as cidades estagnaram. O grande cemitério já não dava conta de manter os mortos distantes das vistas dos vivos e o rei tornou-se velho, muito velho.

Coisas, o quarto conto. É o conto mais longo do livro. A solidão, a alienação, o poder invisível das instituições e a instabilidade do sistema vigente estão presentes na narrativa. As coisas são personificadas. Para quase tudo há uma sigla. As pessoas são marcadas, por uma letra do alfabeto tatuada na palma da mão, conforme sua posição na estratificação social. As precedências A, B, e C eram as mais desejadas, e as mais difíceis de alcançar, já que os filhos herdavam as letras dos pais e mães. O personagem principal é um homem solitário, que pertence à precedência H. Ele é funcionário de uma repartição pública. Tudo começa com uma porta, que voluntariamente, fere o funcionário. Um sofá tem febre. O relógio não funciona. Coisas desaparecem. Há uma distopia. O tom de mistério e o desejo por saber o final é que nos leva até o fim do conto.

Centauro, o quinto conto. É o meu preferido. O modo como o narrador separa homem e cavalo, como descreve o amanhecer, entre os gestos e passos do personagem. Remete-nos aos dualismos que envolve o pensamento ocidental, como: humano – animal; razão – instinto; divino – bestial. O conto é trágico e poético. Os acontecimentos vão do tempo mítico ao tempo histórico, eles permitem a presença do maravilhoso num tempo onde os mitos não têm mais lugar. O solitário personagem tem consciência de sua solidão, tristeza e melancolia. Do conflito entre o homem e o cavalo, o narrador, constrói o centauro. É por meio do sonho que o Centauro emerge, no meio da escrita, para nós, leitores e leitoras. Eis, um trecho, que exige ser transcrito: “os olhos do homem cerraram-se devagar. […] Nunca sonhava como sonho um homem. Também nunca sonhava como sonharia um cavalo. Nas horas em que estavam acordados, as ocasiões de paz ou de simples conciliação eram muitas. Mas o sonho de um e o sonho do outro faziam o sonho do centauro”.

Desforra, o sexto e último conto. É um conto curto, simples e límpido. O personagem é um rapaz que acaba de vir do rio, onde pousou o barco. Os acontecimentos ocorrem no campo, o rio flui, lento. Uma rapariga olha o rapaz, da outra margem do rio. E a desforra aqui, talvez tenha relação, com o que se perdeu, quando colocamos, as máquinas e as coisas no lugar dos homens e das mulheres.

Os três primeiros contos: Cadeira, Embargo e Refluxo remetem-nos a contextos históricos, políticos e econômicos como a ditadura de Salazar, o Embargo de 1973, o poder da monarquia. Os últimos três contos: Coisa, Centauro e Desforra têm em comum um desfecho aberto, que nos oferece muito o que pensar.

Ao final, indico a leitura, digo mais, nas circunstâncias em que vivemos, ela é quase necessária.

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