Poema – Se
por Thiago
em 16/05/15

Nota:

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Hoje quero fazer algo diferente aqui no site, não vou resenhar livro nenhum, mas calma isto ainda é uma resenha. Uma das coisas que mais gostei de ler na infância, adolescência e juventude foram poemas, sei lá por qual motivo me afastei um bocado destas linhas.

Quando criança minha mãe costumava ler poemas variados pra eu dormir. Assim conheci Carlos Drumond, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu, Vinícius de Moraes, Gonçalves Dias e Rudyard Kipling.

Quero então falar sobre um destes escritores pra vocês, melhor dizendo, sobre uma de suas obras. No caso o não brasileiro da lista, o indiano Rudyard Kipling, incrivelmente famoso na Inglaterra por sua prosa e poesia. Caso tenha faltado as aulas de história, ou simplesmente não lembre de nada delas vale aqui lembrar que a Índia era colonia da Inglaterra, por sua importância era conhecida como “a jóia mais cara da coroa”. Não vou entrar tanto nessas questões históricas para não fugir da proposta.

Voltando a Rudyard Kipling, você deve o conhecer pelo “Livro da selva”, um livro que contém uma coletânea de história publicadas em jornais e revistas entr 1893 e 1894, dentre elas a história de Mogli, aquele mesmo que virou desenho da Disney tempos depois.

Vale aqui ressaltar que se trata de um autor extremamente controverso, eu tenho sérias restrições a ele, pois demonstra sérias questões ligadas ao racismo e militarismo em alguns de seus textos, como no poema “O fardo do homem branco”, publicado em fevereiro de 1899 na McLure’s Magazine, em um momento crítico, quando a expansão colonial tocava os seus limites.

Segue um pedacinho:

Assuma o fardo ó, homem branco
Das selvagens guerras da paz.
Alimente a boca da fome
E faça com que cesse a miséria

Texto que representa a ideia do imperialismo e a mentalidade progressista do fim do século XIX.

Entretanto o poema que quero apresentar pra vocês é outro, o famoso “If” ou “Se”. Segue abaixo em português e inglês
If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise;

If you can dream–and not make dreams your master,
If you can think–and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on!”

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings –nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And –which is more– you’ll be a Man, my son!

Se

 

Se podes conservar o teu bom senso e a calma

Num mundo a delirar para quem o louco és tu…

Se podes crer em ti com toda a força de alma

Quando ninguém te crê…Se vais faminto e nu,

 

Trilhando sem revolta um rumo solitário…

Se à torva intolerância, à negra incompreensão,

Tu podes responder subindo o teu calvário

Com lágrimas de amor e bençãos de perdão…

 

Se podes dizer bem de quem te calunia…

Se dás ternura em troca aos que te dão rancor

Mas sem a afectação de um santo que oficia

Nem pretensões de sábio a dar lições de amor…

 

Se podes esperar sem fatigar a esperança…

Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho…

Fazer do pensamento um arco de aliança,

Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho…

Se podes encarar com indiferença igual

 

O triunfo e a derrota, eternos impostores…

Se podes ver o bem oculto em cada mal

E resignar sorrindo o amor dos teus amores…

Se podes resistir à raiva e à vergonha

 

De ver envenenar as frases que disseste

E que um velhaco emprega eivadas de peçonha

Com falsas intenções que tu jamais lhes deste…

Se podes ver por terra as obras que fizeste,

 

Vaiadas por malsins, desorientando o povo,

E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,

Voltares ao princípio a construir de novo…

Se puderes obrigar o coração e os músculos

 

A renovar um esforço há muito vacilante,

Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,

Só exista a vontade a comandar: Avante…

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre…

 

Se vivendo entre os reis, conservas a humildade…

Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre

São iguais para ti à luz da eternidade…

Se quem conta contigo encontra mais que a conta…

 

Se podes empregar os sessenta segundos

Do minuto que passa em obra de tal monta

Que o minuto se espraie em séculos fecundos…

Então, oh ser sublime, o mundo inteiro é teu!

 

Já dominaste os reis, o tempo e os espaços!

Mas, ainda mais além, um novo sol rompeu,

Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,

 

Sem receares jamais que os erros te retomem,

Quando já nada houver em ti que seja humano,

Alegra-te, meu filho, então serás um Homem!…”

“If…” – Rudyard Kipling

 

Este texto foi aclamado internacionalmente como um tributo as virtudes humanas. Kipling escreveu este poema baseado na história de Leander Starr Jameson, que em 29 de dezembro de 1895 liderou o avanço de uma tropa com mais de 600 mil soldados rumo ao episódio conhecido como Invasão Jameson, uma ação militar de alto risco durante a guerra dos Boêrs na África do Sul. A ação foi um total fracasso, sendo inclusive um dos estopins para a segunda guerra Boer. No entanto, Sir Jameson se tornou um herói junto à imprensa britânica, sendo alcamado por sua coragem em ter aceito a missão e ter assumido pessoalmente o fracasso da mesma.

by George Charles Beresford, platinum print, 8 October 1913

by George Charles Beresford, platinum print, 8 October 1913

Kipling nos mostra a importância de continuar depois do fracasso, de aprender com o erro. Como nos mostrava Fernando Pessoa em “Poema em linha reta”, que podemos perceber nesta estrofe:

” E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
(sem pagar),
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.”

A proposta de Kipling e de Pessoa está em assumir seus atos, como lutador assumir que não fez uma boa luta e que o adversário que o nocauteou foi realmente superior. Assumir-se enquanto falho faz parte de ser ser humano e uma parte muito importante.

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Sendo assim,

boa leitura, falhas, reconhecimento das mesmas e aprendizado com estas a todos.

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