Prime com o Poderoso – Kevin can f*** himself
por Patricia
em 24/09/21

Nota:

Existe uma fórmula clássica de sitcoms familiares (comédias multi-câmera com episódios de 30 minutos com um elenco familiar): um homem cheio de personalidade, uma esposa belíssima (normalmente mais nova) e um par de crianças que interagem com os pais quando faz sentido. Pense “Everybody Loves Raymond”, “The Middle”, “The King of Queens”, “The Cosby Show” e “Married with Children” (essas duas últimas com filhos mais presentes). A fórmula funciona e, por muito tempo, permeava as principais séries na TV americana.

Em “Kevin can f*** himself”, temos a clássica esposa de sitcom, Allison McRoberts. Ela está sempre limpando ou servindo de ponto de piada para seu marido, Kevin. Quando Kevin está em cena, o show representa tudo como uma sitcom padrão incluindo as risadas de fundo que indicam aos telespectadores onde está a piada que tentam provar como Kevin é engraçado. Mas quando Allison está sozinha, a fotografia escurece, as risadas de fundo desaparecem e vemos uma mulher lutando com um casamento infeliz com um homem-criança que se recusa a crescer porque, hey, ele é engraçado (mais ou menos), a esposa dele é linda e o que mais ele pode pedir?

A proposta da série é inovadora. Nos primeiros dois episódios, existe uma estranheza para entender o ritmo que apesar de, na teoria, Allison viver como uma típica esposa de sitcom, na prática, sua vida é cheia de desespero. É como se Debra Raymond tivesse um lado obscuro que ela só pudesse explorar quando as câmeras não estivessem nela.

A esposa de sitcom é um arquétipo perfeito para uma pessoa que não sabe dizer não – quando Alisson joga algo no chão com raiva, ela volta segundos depois para pegar e jogar no lixo. Quando alguém esbarra nela, ela pede desculpas. Quando toma uma decisão que vai deixar alguém infeliz, ela começa a duvidar de si mesmo. Sua vida é um constante “agradar ao outro”.

A série se propõe a mostrar que as personagens femininas que crescemos assistindo raras vezes tinham histórias próprias ou agência, com vidas que giravam em torno da família e principalmente do marido – que, quase sempre, era um moleque com algumas piadas no bolso. E é quando percebe seu papel secundário em sua própria vida que Alisson se dá conta do inevitável: ela precisa matar Kevin.

Esse mote central vem de uma série com Kevin James (de The King of Queens) que, tentando retomar sua carreira na TV voltou com uma sitcom chamada “Kevin can wait” em 2016. Ao final de uma primeira temporada morna, decidiu-se que a esposa fictícia ia morrer para abrir caminho para uma nova na segunda temporada. A personagem era tão secundária que, quando os roteiristas não tinham mais ideias do que fazer, decidiram que ela era dispensável. Em “Kevin can f*** himself”, o mote se inverte.

Os episódios tem 60 minutos, mas se beneficiariam de um enredo mais enxuto – talvez de 30-45 minutos. Ainda que as atuações sejam muito boas, o enredo pode ser levemente enrolado em alguns momentos. O roteiro também tem alguns problemas em fechar a narrativa e o episódio final da temporada é morno quando deveria ser uma potência e criar uma curiosidade de ver mais. A série já foi renovada e novos episódios devem surgir em 2022. É aguardar para ver se conseguem entregar tudo o que prometem. A proposta, pelo menos, é boa.

Postado em: Amazon Prime
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