Resenha de Quadrinho – Billie Holiday
por Juliana Costa Cunha
em 09/05/18

Nota:

Billie Holiday de Muñoz & Sampayo, é uma HQ lançada no Brasil em função da comemoração do centenário da cantora em 2015. Originalmente a HQ foi lançada em 1989, três décadas após a morte desta cantora de voz inigualável.

Aqui encontramos o texto vibrante de Sampayo e o traço forte e sempre em preto/branco de Muñoz. Este último considerado um dos mestres do quadrinho em preto e branco e influenciador de vários outros quadrinistas no mundo. É bem marcante no livro o contraste entre luz e sombra. Tal contraste fazendo jus à vida de Billie, tão conturbada e sofrida. Mas também tão glamourosa e espetacular.

É importante que eu deixe claro que a HQ do ponto de vista do quadrinho, do traço, do desenho e do ritmo do texto é muito boa. O texto é construído de forma não linear, dando a impressão do improviso jazzísticos. Há momentos que as falas soam como vibrações vocais em canções. Com relação aos desenhos, estes são bem expressivos. As expressões faciais são destaque, remetendo ao esforço para tocar um instrumento ou mesmo para alcançar aquele timbre em determinada canção.

Dito tudo isso, posso dizer que não gostei da abordagem que que foi dada pelos autores à história de Billie Holiday. O foco da narrativa está nas diversas violências que a cantora sofreu ao longo da vida, nas suas relações abusivas, no abuso de álcool, cocaína e nas diversas vezes em que ela foi presa. É fato que também encontramos no texto o preconceito racial bem perceptível em todas as relações vivenciadas por Billie, principalmente com a polícia (e que os autores trazem pros tempo atuais em dada passagem com o personagem narrador). Aqui, talvez, algumas pessoas que já tenham lido esta HQ, vão me perguntar “mas qual história que você queria, se esta foi a história de vida dela?”. Huuum, vejamos.

Os autores utilizam como recurso narrativo um personagem jornalista que tem a incumbência de escrever sobre Billie Holiday (e que deixa a namorada esperando enquanto isso, fazendo com  que ela ligue para ele ao amanhecer de um bar, bêbada e dizendo que dessa forma teria que transar com qualquer um embaixo da mesa. OI?).

O jornalista em questão não conhece nada sobre a cantora e pede à sua secretária para ajudá-lo na pesquisa. Ao longo da noite ele vai se envolvendo com a história e se impressionando com ela. Mas ele se impressiona pelos aspectos policialescos da vida de Billie. Pelas tantas vezes que ela foi estuprada. Pelas vezes que foi presa por porte de drogas. Pelas vezes que foi agredida por seus companheiros. É muito pouco, ou quase nada o que aparece da genialidade musical de Billie Holiday nas páginas dessa HQ.

A história narrada nos quadrinho vai de encontro à introdução do livro que traz essa genialidade. Traz a parte trágica da vida dela, mas enaltece e agiganta a potência vocal e histórica da cantora. Bem como suas diversas parcerias e tantas pessoas que tiveram suas carreiras impulsionadas por ela. O que me fez pensar que sim, a história pode ser contada sobre um outro ponto de vista. Um que não seja tão pejorativo.

E também me fez lembrar do livro “Strange Fruit – Billie Holiday a biografia de uma canção” (Cosac&Naif), sob a autoria de David Margolick. Que traz a história de uma música cantada por Billie e, obviamente, relata a vida dela. Nela, a música e a potência da cantora são os destaques.

É isso. Poderia ter gostado mais. Mas não rolou.

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