Resenha de Quadrinho – Fun Home
por Patricia
em 12/04/16

Nota:

fun-home-cover

 

Ouvi diversas pessoas cujas opiniões me interessam falando desse livro e dizendo o quanto gostaram. A pulga se instalou atrás da orelha e comecei a buscar a obra. Cacei Fun Home até o fim do império britânico porque a edição brasileira está esgotada já há algum tempo. Tentando evitar saber muito sobre a história, comecei a ler essa HQ sabendo apenas que havia um tom auto-biográfico muito forte.

Fun Home foi lançado originalmente em 2006, depois da autora encontrar considerável sucesso com a tirinha Dykes to watch our for (Lésbicas para ficar de olho, em uma tradução literal) que durou 25 anos. Aliás, se você já ouviu falar do Bechdel Test – teste que verifica se um filme contém duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. E, acredite, muitos filmes não passam no teste.

O que temos nesta história é uma amálgama de pequenas tragédias familiares. Todo o enredo gira em torno do relacionamento de Bechdel com seu pai, Bruce. Um homem antiquado, um pouco alheio à família, que dividia seu tempo entre ser professor e agente mortuário – uma herança de família. O título da obra, aliás, é um trocadilho entre Funeral Home (Casa mortuária) e Fun Home (Casa divertida). Página após página podemos notar que comédia não era bem o forte dos Bechdels.

Em uma outra linha narrativa, temos a história de uma menina que está se descobrindo. Não apenas como mulher, mas também como lésbica. Alison vai revelando aos poucos seus interesses por roupas e uma estética mais masculinizada enquanto aborda também o estilo mais feminino do pai. Ao passo em que parece que ambos se completam, a relação entre eles é estranha. O pai, um leitor ávido, consegue passar o amor aos livros para a filha (no que pode ser uma tentativa de aproximação de ambas as partes), mas até que Alison saia de casa para a faculdade, a relação deles é fria e distante.

Até que Alison entende quem realmente é, em uma carta direto da faculdade, Alison abre o coração e sai do armário para a família. Sua mãe fica arrasada, seu pai não parece surpreso. Mas é sua resposta que deixa claro o conflito que ele próprio enfrenta: ele não vê problemas em experimentar, mas será que ele precisa se dar um rótulo?

Na próxima visita à casa, Alison vai entender de onde saiu isso: seu pai era gay. Um gay enclausurado no armário mas que já havia respondido na justiça pelo seu gosto peculiar por homens mais novos (muitas vezes menores de idade). E enquanto tenta lidar com essa informação, seu pai morre.

O quadrinho é de uma delicadeza impressionante para um assunto tão pesado. Os traços, as cores, o cuidado com as citações literárias que nos ajudam a entender melhor o contexto. O cuidado de Bechdel em escrever sua história de maneira alinear, sem nunca julgar o pai é muito interessante. Ela podia ter se desconectado totalmente e ido a lugares muito mais extremos, mas o que vemos aqui é uma filha que ainda tenta entender o que aconteceu com seu pai. Não há amargura ou ressentimento…é apenas uma filha que não conhecia muito bem o pai e teve que lidar com a enorme sombra que ele deixou quando partiu.

Uma lindíssima obra que prende o leitor e faz com que a leitura flua tranquilamente. Valeu cada minuto da caçada.

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