Resenha de Quadrinho – O árabe do futuro II
por Patricia
em 09/05/16

Nota:

o arabe

 

Riad Sattouf teve uma infância diferente. Filho de mãe francesa e pai sírio, ele cresceu no limite entre o Oriente e o Ocidente até que o Oriente falou mais alto e seu pai levou a família para a Síria onde seria professor e “construiria uma mansão” para a família viver bem e feliz.

No primeiro volume (resenhado aqui no Poderoso pelo Thiago), Riad nos contextualiza na sua família e conhecemos o temperamento sutil da mãe e a personalidade forte e quase agressiva do pai.

Nesse segundo volume, Riad vai nos contar como foi estudar na Síria acompanhando seu pai tentar ser alguém – e falhar – enquanto sua mãe sumia. Em poucos momentos temos noção de como a mãe do quadrinista se sente, como se seus sentimentos (apesar de bem claros nesses momentos) não são levados em conta nunca. Certamente não pelo marido que só age quando ela reclama com mais empenho. Outro momento em que ela aparece é quando o pai de Riad faz amizade com uns militares e ele quer que a esposa se enturme. Fora isso, a perspectiva de sua mãe fica em segundo plano.

Em primeiro plano temos, portanto, Riad tentando se enturmar na escola: sem falar muito bem a língua e sem entender os costumes, ele vai estudar para se tornar o que seu pai chama de “o árabe do futuro” – o reflexo de um povo estudado e multicultural. Na Síria, Riad vai conhecer um sistema educacional rígido e violento. Os alunos apanham dos professores até que chorem e a primeira lição é aprender e decorar o hino nacional, não há livros, apenas a autoridade do professor  que comanda a sala com mão de ferro. Os professores também repetem os discursos do Governo – a professora pede aos alunos que lembrem seus pais de votarem A FAVOR do Governo nas próximas eleições (o Ditador abria eleições a cada 7 anos e era sempre eleito por uma esmagável maioria – chegando a 96% de votos favoráveis). A primeira palavra que o pequeno Riad aprende é “Yahudi” que significa judeu e, na escola, uma das brincadeiras é “caça aos judeus”.

O Árabe do futuro nos mostra uma infância triste, de repreensão constante e de pouca expressão. Riad não parece ter sentido a fundo o baque da mudança da França para a Síria por ser muito novo e não ter pleno conhecimento de questões básicas, mas o leitor sabe bem do que a família foi obrigada a abrir mão para seguir o sonho do pai que parece demorar mais do que esperavam para se concretizar. A cena do pai mostrando um terreno baldio dizendo que “um dia vai construir uma mansão ali” enquanto a família volta para uma casa que não tem nem fogão, já diz tudo.

É importante não encarar a simplicidade do meio com a mensagem. Quadrinhos têm uma certa fama de simplicidade extrema e isso tem lá seu ponto de verdade. Quando estamos falando de desenhos, não podemos esperar roteiros intricados como um romance padrão. Uma biografia como O árabe do futuro, por exemplo, pode ser vista por um ponto de vista muito mais simplista do que realmente é. O quadrinho vai exigir, portanto, um pouco mais de compreensão do leitor – quando quase tudo parece estar escancarado em uma quadro colorido, vale lembrar que há muito mais por trás disso. O Thiago tocou um pouco nisso em sua resenha do primeiro volume da história, ainda que por um viés diferente.

Uma outra obra que trata de tema similar e também trás uma visão interna de uma civilização diferente, aqui a iraniana, é Persépolis. Lembrei bastante desta obra enquanto lia O árabe do futuro. As similaridades são várias ainda que em Persépolis, Marjani Sartrapi não detalhe sua vida quanto criança, mas nos dê um cenário mais abrangente de toda sua vida no Irã até mudar para a França.

Encerramos o segundo volume de O árabe do futuro não apenas com a curiosidade acirrada pelo que ainda pode vir por aí. O terceiro volume ainda não foi lançado na França (o autor planeja publicar 5 volumes ao todo) mas Sattouf nos serve um olhar inocente e fantástico para uma cultura sombreada por mitos e desconhecimento. Os próximos volumes prometem ainda mais.

 

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O livro foi enviado pela editora.

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