Resenha de Quadrinho – O árabe do futuro – Uma juventude no Oriente Médio (1978-1984)
por Thiago
em 13/04/16

Nota:

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Um quadrinho diferente, um livro de memórias, uma biografia. O Árabe do futuro é formado de, mais especificamente, as lembranças de Riad Sattouf, 36, reconhecido quadrinista da nova geração francesa e ex-colaborador da revista Charlie Hebdo (isso, aquela dos atentados).

Filho de mãe francesa, nascida na Bretanha e de pai sírio, de uma aldeia próxima a Homs, Sattouf retrata em O árabe do futuro – Uma juventude no Oriente Médio (1978-1984) o choque cultural experimentado por uma criança criada na França socialista de Mitterand ao viver nas ditaduras da Síria de Assad e da Líbia de Kadafi.

Vale ressaltar que esta é a primeira parte deste quadrinhos de memórias e a continuação, já lançada, retrata os anos de 1984 e 1985. Em menos de um ano, o primeiro volume da autobiografia de Sattouf teve mais de 90 mil exemplares vendidos na França e recebeu, no início de fevereiro, o prêmio principal da 42ª edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême.

O que motivou este quadrinho é a guerra civil na Síria em 2011 e pela operação de resgate pelo autor empreendida para retirar seus familiares de Homs, um dos epicentros da revolta. Já o título do quadrinho surgiu da obsessão de seu pai pela edificação de um “árabe do futuro”. Para o patriarca, defensor do pan-arabismo e que conheceu a mãe do quadrinista enquanto estudava na Sorbonne, o homem árabe deveria se instruir para escapar do obscurantismo religioso. O árabe do futuro não seria supersticioso ou escravo das potências — teria uma concepção de progresso aliada às tradições.

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Três coisas valem ser ressaltadas aqui: a primeira delas é a nossa relação com revistas em quadrinho, que por mutias vezes se restringem a publicações americanas, às vezes um ou outro vai para o lado oriental com os mangás. No Brasil não temos o costume de levar quadrinhos a sério, como uma mídia que não é limitada pela idade do leitores. Os quadrinhos formam uma plataforma onde se pode encontrar conteúdos para grupos variados. Em O árabe do futuro, por exemplo, temos uma publicação francesa (há diversos quadrinhos franceses de excelente qualidade) feita por um autor de origem árabe.

O segundo elemento é o próprio mundo árabe que por desinformação povoa nossa cabeça de uma maneira bem estranha. Esta HQ autobiográfica nos auxilia a compreender tal realidade e desconstruir preconceitos étnicos, intolerâncias religiosas e até problemas xenofóbicos que não gostamos de assumir.

O terceiro ponto é a relação do autor com regimes totalitários. Sua jornada o fez vivenciar mais de um país nesta situação. Se você não compreende o que é a realidade de uma ditadura, este quadrinho esclarece bem.

Admiro muito a coragem de Riad Sattouf por contar sua história e de sua família. Uma obra que nos apresenta realidades à quais não estamos acostumados, de uma maneira pessoal. Riad não poupa sua família, não os retrata de maneira leve, aponta principalmente os posicionamentos e crenças do pai como quem lida com uma ferida.

Quanto à parte gráfica, os desenhos são leves e agradáveis e conseguem compor e complementar a narrativa. O ponto negativo fica com a narrativa que durante a leitura se torna arrastada.

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Boa leitura a todos!

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O livro foi enviado pela editora.

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