Resenha de Quadrinho – O mundo de Aisha
por Patricia
em 30/05/17

Nota:

O Mundo de Aisha é uma HQ que já diz na capa a que veio: com a imagem de uma mulher de niqab olhando sobre os ombros, embarcaremos em um mundo diferente de tudo o que conhecemos no dia a dia. A fotojornalista Agnes Montanari passou meses viajando pelo Iêmen, segundo maior país da Península Arábica, um dos menores PIBs do mundo, um país islâmico fundamentalista e com duas AK-47 por cidadão. Nada no Iêmen chamaria a atenção se Agnes não tivesse se interessado em contar a história do ponto de vista das mulheres  que mal são vistas e transitam pelas cidades como sombras.

Todo este trabalho inspirou o ilustrador italiano Ugo Bertotti a criar esta HQ misturando ilustração com fotos reais.

A idéia de misturar ilustração com fotos reais não é nova. A série O fotógrafo de Emmanuel Guibert e design de Frédéric Lemercier traz algo similar também aproveitando um viés jornalístico sobre o Afeganistão. E, se pensarmos em quadrinhos jornalísticos, não podemos esquecer de Joe Sacco, ilustrador bem polífico no gênero (ele já passou pelo Poderoso com Reportagens, Sarajevo e Notas sobre Gaza).

Em O mundo de Aisha, há três histórias principais: a de Sabiha que se casou aos 11 anos, teve dois filhos e o marido a encontrou um dia na janela sem o niqab e atirou nela. Depois vem a história de Hamedda que, viúva, se viu sozinha para criar cinco filhos. Com esforço e muito julgamento da sociedade, ela abre uma pensão e recebe soldados na época da guerra. Ela lida com comentários maldosos e baixos, mas consegue prover para sua família. Aos poucos, ela estabelece um negócio de sucesso atraindo turistas do mundo todo. E temos, também, Aisha – que dá nome à HQ. Jovem, ela quer estudar e só pensa em se casar depois de formada. Tem um emprego na área de informática e quer escolher seu marido. Ela também dá aulas em uma ONG para mulheres que é onde conhece histórias incríveis que também são divididas na obra.

Este é um resumo do que você encontrará quanto a enredo e apesar de parecer que é algo simples, certamente não é fácil acompanhar todas essas histórias. A opressão, o terror, a violência infligida às mulheres iemenitas são dolorosas. A história de cada uma dessa mulheres citadas, significa um passo no avanço lento dos direitos de todas as mulheres no Iêmen. Talvez não existisse Aisha se não houvessem existido milhares de Sabihas – algo lamentável de se compreender.

E enquanto podemos imaginar que o novo mundo de Aisha é bem melhor do que o que existia antes, vale lembrar que o Iêmen continua em guerra civil com a população presa entre forças extremistas de um lado e rebeldes do outro. E ao contrário dos refugiados sírios que tanto abalaram as redes sociais nos últimos meses, os iemenitas estão, literalmente, presos em seu país:

O bloqueio por mar, terra e ar estabelecido pela coalizão saudita – que luta contra os rebeldes houthis – impede também que os iemenitas deixem o país. Com isso, não se gerou uma crise de refugiados como no caso da Síria, outro fator que contribuiu para a invisibilidade do conflito “As pessoas estão presas no Iêmen, então não há filas de refugiados em países vizinhos onde os repórteres podem vê-los e chamar a atenção para o conflito”, pontua Charles Schmitz, especialista em Oriente Médio e Iêmen do Instituto do Oriente Médio em Washington e professor da Universidade Towson em Baltimore. […]  Segundo a ONU, já são mais de 6,6 mil mortos desde o início do conflito – 3,8 mil deles eram civis, e 6,7 mil ficaram feridos. Ao menos 620 crianças morreram e 758 foram mutiladas desde meados de 2015, afirma a organização.

Em sua obra, A guerra não tem rosto de mulher, a bielorussa Svetlana Aleksievitch nos apresenta relatos de mulheres que lutaram pelo exército soviético na 1a Guerra Mundial. Os contos da guerra são devastadores e a jornalista explica que por mais triste que seja participar dessa narrativa, temos que ser testemunhas do que aconteceu para que a vida dessas pessoas não tenha sido em vão. O mundo de Aisha me parece que se beneficia de um apelo similar. As mulheres iemenitas já são enclausuradas, abatidas, violentadas, minimizadas e oprimidas de diversas maneiras. Reconhecer seu sacrifício e sua história é, ao menos, algo que podemos fazer para que tudo o que ela vive diariamente não seja em vão.

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