Resenha de Quadrinho – Uma metamorfose iraniana
por Patricia
em 13/02/17

Nota:

 

Em Janeiro de 2015 o mundo parou para assistir ao atentado na sede do jornal Charlie Hedbo na França. As tirinhas satíricas do jornal há muito já vinha causando comoções na comunidade islâmica e o resultado foi 12 mortos e 11 feridos. Levantou-se uma discussão acirrada sobre liberdade de expressão e religião X discurso de ódio. O atentado fez com que muitos se questionassem se a sátira pode ser uma crítica e se o humor negro embebido nesse gênero dá conta do recado ou apenas piora situações já delicadas (caso da sátira religiosa).

Mas muito antes disso outro cartunista sentiu de perto como uma tirinha poderia mudar sua vida para pior. Mana Neyestani é um cartunista iraniano que, por muitos anos, trabalhou em jornais reformistas. Ainda que criticassem (levemente) o Governo, estes jornais tinham certa segurança de operar sem censura. Até que Neyestani foi trabalhar em um outro jornal cuidando de um caderno destinado ao público jovem e criando tirinhas inocentes e divertidas para este público (pelo menos, este era o objetivo).

Em um dia de pouca inspiração, Neyestani desenha uma tirinha sobre como lutar com uma barata. No meio da conversa entre a criança e a barata, esta responde com um termo aleatório. O que Neyestani não sabia, é que este termo aleatório tinha um significado na língua do povo azeri (iranianos de origem turca que vivem à margem da sociedade). Vindo da boca de uma barata, a interpretação era apenas uma para os azeris: o cartunista estava dizendo que eles eram como baratas.

Este foi o estopim para que a revolta dos azeris que acabou gerando repercussões impensadas: Neyestani foi preso junto com seu editor, a produção do jornal foi suspensa e azeris foram mortos pela polícia enquanto protestavam.

A história começa desse ponto. Neyestani passa pouco tempo nos contando sobre a vida dele antes deste episódio porque essa reviravolta em sua história mudou todas suas perspectivas de futuro. Em ‘Uma metamorfose iraniana’ o cartunista divide o árduo caminho que o levou de preso político a refugiado. Ele não perde a ironia de uma barata ter mudado sua vida tal como a vida de Gregor Samsa no clássico de Kafka – ‘A metamorfose’ (história sobre a qual o Ragner comentou um pouco na resenha da versão em quadrinho) e usa essa comparação durante toda a história. Em vários momentos o cartunista se imagina matando uma barata, como se isso pudesse mudar o caos atual.

Apesar de seu ardil ter durado anos, o cartunista não perde muito tempo em sua estadia em cada país (ele teve que viajar um bocado antes de conseguir se assentar em um lugar só com segurança). A leitura do quadrinho flui e é rápida. Junto com ‘Persépolis’, este quadrinho nos apresenta mais um lado cruel do regime iraniano por alguém que sentiu na pele o que é acordar um dia e ser aquilo que ele mais teme: um inimigo do Estado.

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