Resenha de Quadrinhos – Bordados
por Gabriel
em 06/06/15

Nota:

Bordados

Marjane Satrapi já apareceu por aqui com Persépolis, uma HQ excelente sobre a sua vida no Irã e as dificuldades principalmente políticas da época. Em Bordados, a proposta é bem diferente. A expressão que dá nome à obra é usada no Irã como a expressão “tricotar” é usada no Brasil, ou seja, como uma espécie de sinônimo de fofocar. E também é usada como sinônimo da cirurgia que costura a vagina e “refaz a virgindade” da mulher, bastante conhecida no país. É um título que diz muito sobre o que se conta em suas páginas.

A autora se propõe a mostrar um lado específico da sociedade iraniana: as conversas das mulheres quando estão em seu “mundo” próprio, livres da repressão dos homens e tomando chá após um jantar. Nada demais, se a personagem principal (a própria Marjane, novamente) não estivesse em um país que vive sob leis religiosas e reprime fortemente o comportamento de suas mulheres, principalmente no aspecto sexual e amoroso.

Obviamente que em um cenário de tanta repressão as oportunidades de pequenas liberdades são bem valorizadas, e o que acontece nessas conversas regadas a chá é que o assunto traz à tona as coisas que a vida cotidiana censura: amor e sexo.

Cada uma das personagens, supostamente pessoas que Marjane Satrapi realmente conheceu, se reveza em contar alguma coisa de sua vida (ou da vida de outras). São histórias às vezes familiares, às vezes chocantes para quem vive em uma sociedade ocidental; mas talvez não tão impressionantes para alguém que já leu uma ou outra coisa sobre a vida de uma mulher nas sociedades islâmicas (como em Infiel ou Desonrada).

O traço de Satrapi é o mesmo de Persépolis: simples, limpo e em preto e branco. Mas nesta obra ela abandona a lógica dos pequenos quadros; a impressão muitas vezes é de que se trata de um livro com ilustrações e não realmente um quadrinho. A arte da autora não chega a impressionar; e, apesar de sua expressividade e de não comprometer o objetivo, não considerei um ponto forte da obra. A edição da Companhia das Letras (através do seu selo Quadrinhos na Cia.) é de leitura agradável, em um formato relativamente pequeno e com páginas de um papel grosso e resistente.

Bordados não é a obra mais impressionante de Marjane Satrapi, mas não se pode exigir isso de alguém que escreveu Persépolis. Ainda assim, a expectativa que a autora coloca (a de contar histórias de vida de mulheres que elas mesmas só dividem entre si) não me pareceu atendida. Senti que as histórias de vida contadas têm suas peculiaridades mas não chocam quem já leu um pouco sobre a vivência feminina em sociedades muçulmanas. Por esse motivo, terminei a HQ sentindo que não cumpre o que promete. Uma pena; ainda vale a leitura para quem ama a autora.

Postado em: Quadrinhos
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2 Comentários em “Resenha de Quadrinhos – Bordados”


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Carlos Teixeira em 07.06.2015 às 23:51 Responder

Este blog é sensacional….

Adorei o conteúdo…

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Patricia em 09.06.2015 às 10:43 Responder

Oi Carlos,

Poxa, obrigada! 😀
Venha sempre, temos resenhas novas todo dia. 😉


 

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