Resenha De Quadrinhos – Mwindo
por Ragner
em 12/07/16

Nota:

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Enquanto não leio, ainda, muitos autores africanos, vou me familiarizando com a literatura e história do povo do antigo continente pelos quadrinhos. Sobre mitos e histórias da África já rolou resenha de Sundiata O Leão De Mali e algo mais contemporâneo em Aya De Yopougon. No que tange a livros, possuímos um número mais considerável, mas que merece crescer (as resenhas estão bem classificadas em Literatura Africana). O desenhista André Diniz já passou por aqui em uma resenha minha de Quilombo Orum Aiê e desta vez ele ilustra uma lenda africana (trabalho em conjunto com a roteirista Jacqueline Martins).

Mwindo é um garoto que foi jurado de morte antes mesmo de seu nascimento. Seu pai, o rei Shemwindo, decreta que suas sete esposas grávidas só darão a luz a meninas e se de alguma delas nascer um menino, esse será morto pessoalmente por ele (com medo de perder seu reinado). Seis esposas acabam parindo meninas e pouco depois (na hora em que Mwindo quisesse nascer e como nascer) a sétima tem seu filho saindo pelo dedo. Mwindo já veio ao mundo como um menino crescido, andando, cheio de sabedoria e astutamente independente. Quando o rei descobre, afia sua lança e vai atrás de Mwindo para matá-lo, porém não consegue porque o menino tem poderes. Depois de algumas tentativas, o garoto é colocado dentro de um tambor e jogado no rio, mas ele decide que não vai morrer e que vai se encontrar com sua tia Iyangura. Ao chegar à uma margem, ele encontra Mukiti, que diz ao menino que para chegar à sua casa, deverá percorrer um árduo caminho, mas Mwindo consegue passar pelos testes de Kasiyembe.

Gosto dos traços do artista, seus desenhos chamam a atenção pelo ar caricato. Em Mwindo, as ilustrações se esforçam em caracterizar de maneira até demasiada algumas representações particulares de cada personagem, o que até ajuda a entender quem é quem e qual seu poder (Nkuba – deus dos raios – tem os cabelos e pernas em formato de raio mesmo). Temos seres do mundo inferior (Kahindo que é a guardiã do reino de Muisa – seu pai – com cabelos que parecem várias minhocas e o próprio Muisa, um gigante rodeado de chamas e bastante ardiloso), o senhor do mundo insondável (Mukiti, uma cobra com cabeça de gente, muito pretensioso, esposo da tia de Mwindo) e seu servo Kasiyembe (um guerreiro leal e obstinado a proteger o território que vigia) e Iyangura, a tia (que parece bastante com a mãe do herói da história).

Em companhia da tia e com a ajuda de Mukiti e de Kasiyembe, Mwindo volta para sua tribo, para lutar contra seu pai. Chegando à sua aldeia, é recebido com armas e ao ver que precisava de ajuda, chama Nkuba, que destrói tudo com seus raios. Percebendo que o rei tinha fugido, Mwindo vai até o mundo subterrâneo de Muisa. Lá, ele encontra a guardiã Kahindo e depois de ser gentil com ela, ele segue seu caminho e chega até Muisa, que esconde o rei. Muisa vai tentando enganar Mwindo, mas o menino é mais poderoso que o gigante e consegue levar seu pai de volta. Na superfície faz o povo morto voltar a vida, revê sua mãe e então é apresentado a suas irmãs. Depois de reconhecer o mal de fez, o rei passa o cetro para Mwindo. Em suas primeiras palavras como novo rei, o menino poderoso e que faz milagres disse:

Eu, o recém-nascido que andou e falou, realizei muitas proezas! E não guardo mais ira contra meu pai. De agora em diante viveremos em paz e harmonia. Vamos festejar.

Como todo mito, Mwindo mostra um pouco sobre crenças lendárias de um povo. Mwindo é um libertador que passou por provações (assim como Moisés que também foi deixado no rio, só que esse para sobreviver), realizou milagres (como Jesus) e unificou seu povo (assim como Maomé). Mwindo também possui outras referências, como na mitologia grega (Hades e seu mundo inferior) e na mitologia nórdica (o deus do trovão Thor). O roteiro é bem curto, a argumentação segue quase atropelada, mas a narrativa vale e podemos aprender um pouco mais sobre o surgimento do povo africano e suas lendas. Mais um bom trabalho em quadrinhos de André Diniz.

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