Resenha de Quadrinhos – Parafusos
por Gabriel
em 05/06/15

Nota:

Parafusos

Na busca por livros escritos por mulheres, me deparei com um anúncio deste aqui. A capa colorida me chamou a atenção e o subtítulo me prendeu: memórias em quadrinhos. Fui conferir a proposta de Ellen Forney.

Diversos artistas são frequentemente apontados como “loucos”. A relação entre criatividade e perturbação psicológica é comumente apontada em diversos segmentos da cultura e das artes atuais. Até por isso, quando a quadrinista Ellen Forney foi diagnosticada com transtorno bipolar, sua cabeça deu um nó: o quanto isso teria relação com a sua vida artística e o quanto o tratamento, principalmente o consumo de remédios, poderia influenciar negativamente sua criatividade e produtividade?

Ellen Forney descobriu muita coisa a respeito de criatividade, vida artística e transtornos psiquiátricos desde o seu diagnóstico. E divide toda essa carga com o leitor em “Parafusos”. O tema pesado é completamente neutralizado pela autora, muito habilidosa no traço humorístico e no sarcasmo. O uso da linguagem dos quadrinhos dá um tom diferente e faz com que essa seja uma obra única.

Sendo uma autobiografia, Ellen contextualiza o leitor em sua vida e nos mostra qual era sua dinâmica. Então, nos apresenta ao diagnóstico de bipolaridade e como isso a afetou. Depois disso, a obra inteira se dedica ao período em que a autora entrou e saiu de tratamentos diversos e lidou com essa montanha-russa de sensações, até finalmente encontrar um tratamento mais próximo do ideal. Além de acompanharmos a jornada da personagem, em diversos momentos a autora nos apresenta detalhes sobre a doença, os tratamentos e a dinâmica do corpo e da mente.

Parafusos é uma obra bem escrita, com um roteiro interessante – afinal, não é sempre que se lê sobre o dilema entre criatividade e distúrbios psiquiátricos. Mas o que realmente se destaca aqui são o meio e a linguagem escolhidos. Ellen se utiliza muito bem dos recursos dos quadrinhos, com um traço que tem assinatura própria; ao mesmo tempo, a autora é muito bem articulada e consegue alterar a linha de sua arte para refletir diferentes situações, sempre com muito capricho e detalhes bem colocados. A edição brasileira também ajuda, com tradução impecável, formato de livro e papel de qualidade.

Esta é uma daquelas HQs que confundem a cabeça de quem lê: é quadrinho, é livro, é o que? No fim, nada disso importa. É, isso sim, mais uma daquelas obras que provam que os quadrinhos são uma forma de arte e expressão criativa tão válida quanto qualquer outra; e com potencial incrível quando bem explorados.

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