Resenha de Quadrinhos – Vizinhos
por Gabriel
em 11/07/15

Nota:

Vizinhos

Na mesma feira de quadrinhos em que comprei Aranha, minha resenha da semana passada, adquiri mais um volume da coleção Revista 1000. O formato padronizado e que restringe o autor a não utilizar texto deixa a coisa muito mais interessante e é campo fértil para artistas criativos. E Laerte Coutinho com certeza faz parte dessa lista.

Laerte é uma cartunista brasileira transsexual e é considerada uma das maiores em sua área. Sua criatividade e habilidade com os formatos de tiras e charges são conhecidas e lhe renderam renome. Nas HQs de maior duração, no entanto, eu ainda não tinha tido oportunidade de conhecer seu trabalho.

Vizinhos mostra muito bem o que um artista habilidoso faz quando existem restrições a um projeto. Nas mãos da autora, as restrições de formato da coleção (pouco mais de 10 páginas e sem uso de texto) tornam-se a tela em branco para a criação de uma obra marcante. A cor presente na capa dá o tom da HQ inteira, basicamente tocada em desenhos de traço preto sobre papel de cor vermelha. Isso confere à história um ar de calor e raiva muito condizente com o roteiro.

A HQ nos apresenta a um homem que, ao chegar em casa, encontra um carro parado em frente ao portão de sua garagem. O incômodo dispara a sua indignação e dá início a uma sequência de observações da rua a fim de identificar o responsável: um guardador de carros. E aí a obsessão do homem vai ficando maior e uma disputa pessoal entre ele e o guardador é o que preenche o restante das páginas.

A autora conta essa história sem utilizar uma palavra sequer. Os personagens são desenhados de forma extremamente expressiva e o traço característico de Laerte lhes confere um ar fluido, algo inexplicável que realmente faz com que os personagens se pareçam com pessoas reais. A qualidade da arte e o uso feito das restrições do modelo são realmente os pontos altos. A leitura é tão rápida e ainda assim tão intensa que, ao final, quis voltar e ler tudo novamente.

Vizinhos é como se fosse um curta-metragem dos quadrinhos. A história, bem contada, tem cara de brasileira e consegue se situar em uma cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro (achei mais com cara de Rio, pessoalmente) de forma muito natural, mesmo sem nunca haver menção a isso. Laerte mostra nessa HQ o nível que tem e a habilidade e conhecimento de seu meio artístico.

Tinha dado 4 xícaras porque quando li achei o final um pouco fraco. Mas agora, lembrando, mudei de ideia. Mesmo o final parece adequado sim à obra. Definitivamente recomendado para uns 15 minutos de pausa e apreciar com calma um bom trabalho.

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