Resenha de Quadrinho – Deuses Americanos
por Juliana Costa Cunha
em 13/08/18

Nota:

Deuses Americanos: Sombras é o primeiro volume de três, da adaptação do premiado romance Deuses Americanos (já resenhado aqui), do escritor britânico Neil Gaiman. Lançado no Brasil pela Editora Intrínseca, a edição reúne os nove primeiros fascículos da série publicados originalmente nos Estados Unidos pela Dark Horse. A adaptação para quadrinhos é do premiado ilustrador e quadrinista P. Craig Russel, que já trabalhou com Gaiman na série Sandman e na HQ Coraline (que o Ragner já escreveu sobre), e a arte de Scott Hampton, que também trabalhou em Sandman.

Neste volume, acompanhamos o protagonista Shadow Moon a partir de seus últimos dias como presidiário quando, prestes a sair da prisão, descobre que sua esposa, Laura Moon, sofreu um trágico acidente de carro. A partir desse choque e de sua saída da prisão, Shadow inicia uma viagem em direção ao universo místico dos Deuses e do sobrenatural. Viagem guiada pela figura do misterioso Sr. Wednesday, homem que conhece na ida ao funeral da esposa e que o contrata para ser algo como “guarda-costas e motorista” em tempo integral.

Os dois passam, então, a percorrer os Estados Unidos, visitando pessoas estranhas, em cidades incomuns e situações inusitadas. Pouco a pouco, Shadow percebe que está vivendo ao lado de Deuses – o Sr. Wedsneday é na realidade o deus Odin – e conhecendo figuras mitológicas – como um duende caipira chamado Mad Sweeney e outros que não citarei para não perder a beleza da viagem que a leitura dos quadrinhos e seus lindos desenhos nos trazem.

Ao mesmo tempo em que Shadow se percebe convivendo com deuses que chegaram à América junto com seus imigrantes – das mais diversas origens – compreende a eminência de uma batalha a ser travada com os novos deuses americanos provenientes da vida moderna e das novas tecnologias – dinheiro, mídia, televisão. E é aqui que o livro se torna genial. De forma simples e clara, Gaiman nos faz refletir sobre nosso modelo de vida – e de crenças – e o quanto estamos conectados com essas novas “entidades” do mundo moderno em oposição ao quanto estamos nos desconectando das nossas origens. Os Antigos Deuses estão apenas sobrevivendo, cada vez mais periféricos – mas até quando?

O livro gira, assim, entorno da ideia central de que os antigos deuses que vieram para os Estados Unidos, com os diferentes povos que imigraram, somados às crenças dos nativos americanos, estão sendo esquecidos e substituídos pelos deuses criados e forjados no modelo de vida moderno e nas tecnologias que lhe dão suporte. O altar, que antes era dedicado a alguma divindade mitológica, passa a ter em seu centro a Televisão, cujo poder hipnótico toma o Tempo (ou a própria vida) como sacrifício. Na minha humilde opinião, o protagonista aperta o botão certo: o off. E deixa claro preferir os amigos de beira de estrada.

O romance também traz histórias de seres mitológicos que vivem no cotidiano das periferias das cidades americanas – como a Rainha de Sabá, que trabalha como uma prostituta em Los Angeles e cuja jovialidade, beleza e poder são mantidos ao sugar para si, literalmente, a vida dos homens com quem dorme.

Ao longo da leitura, me perguntei o que fez com que Shadow, apesar de demonstrar certa dose de perplexidade, ficasse tão apático diante de situações um tanto o quanto bizarras como dialogar com um aparelho de TV, por exemplo. Será que nesse ponto a narrativa em quadrinhos deixou a desejar? Ou será que a personagem é assim devido ao choque de emoções que vivenciou ao sair da prisão? Para Shadow nada mais é estranho, ou bizarro, é apenas o que está acontecendo naquele momento – sem maiores explicações, ou sentidos. Será que ele irá despertar ao longo das próximas paradas? Voltar a sentir?

A narrativa dos desenhos, com seus traços e imagens detalhadas e explosivas, junto às palavras e diálogos bem pontuados e claros, não deixam lacunas no desenrolar da trama, tornando a adaptação fluida. Esta Edição conta ainda com extras incríveis que apresentam esboços originais dos quadrinhos, estudos de personagem, layouts originais e capas criadas por ilustradores renomados, incluindo o premiado Fábio Moon, quadrinista brasileiro.

Tudo isso só aumenta a minha curiosidade em ler os próximos dois volumes e dar sequência a essa história, acompanhando Shadow pelas cidades americanas, conhecendo seus deuses e deusas e vendo o desenrolar dessa batalha pela permanência e busca de sentido.

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Livro enviado pela editora.

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