Resenha – Minha coisa favorita é monstro
por Juliana Costa Cunha
em 22/07/19

Nota:

Emil Ferris é, no momento, o que no linguajar popular chamamos de “a dona da porra toda”. Ganhou diversos prêmios e, entre eles, aquele que é considerado o Oscar dos quadrinho, o Prêmio Eisner.

Sinceramente, basta pegar este livro e dar uma passada de vista nele e suas ilustrações para entender tantos prêmios. Passei dias “lendo” as ilustrações antes de, de fato, ler o texto do livro. Ferris desenha em papel pautado e com esferográficas (as famosas canetas Bic.). E é lindo como ela se utiliza das linhas do papel pautado pra compor seus desenhos. É um nível de detalhamento que espanta. Ainda mais quando fui pesquisar mais sobre sua história.

Ferris foi infectada pelo vírus do Nilo Ocidental, quando tinha 40 anos e uma filha pequena para criar. Mãe solo nas virações do dia a dia, trabalhando como freelancer. Esse vírus, apenas em 20% das pessoas infectadas, evolui para quadros de febre, dores no corpo e vômitos. E, dependendo da baixa imunidade da pessoa que apresenta esses sintomas, pode evoluir ainda mais para doenças neurológicas. Após três semanas de infectada, Ferris estava paralisada da cintura para baixo, sem fala e com seu braço direito também sem movimentos.

Pois bem, como a autora precisava continuar pagando suas contas e cuidando sozinha de sua cria, decidiu voltar pra os estudos e aprender a arte da escrita. E, ao longo dos anos, voltou a desenhar, embora afirmando que sem a mesma destreza de antes. O que me faz pensar como era antes. E talvez quando você que me lê for ler este livro, vá pensar o mesmo.

Pois bem, foram cinco anos trabalhando até que o Minha coisa favorita é monstro ficasse pronto. Nele encontramos Karen, uma menina de 10 anos, apaixonada por história de monstros e diferentona. E, por ser essa pessoa, sofre bullying na escola, no prédio onde mora e na rua. A vida de Karen não é nada fácil e pra mim foi muito fácil ter empatia por ela.

A história é contada através do diário de Karen. Nesse diário ela se autorretrata como uma monstrinha, uma espécie de Lobismoça. E é esta forma que ela encontra para fugir de sua dura realidade e enfrentar o mistério de um assassinato em seu prédio e de questões de saúde em sua família.

A história é toda bem amarradinha e contextualizada com a época em que é narrada. Traz passagens importantes da história mundial. Faço uma ressalva para a relação de Karen com seu irmão e seus lindos passeios pelos museus da cidade, vendo as obras de arte e comentando sobre elas.

É uma história densa, que passeia pelo feminismo e objetificação da mulher. Por questões raciais e de imigração. Passa pela descoberta do desejo sexual e das drogas. Passa pela perda e o reencontro. Passa por um lindo processo de aceitação de si mesma. O que em muitos momentos me fez pensar se a autora não estava nos contando de alguma forma sua própria história, depois de sua doença.

Este é o volume 1 do quadrinho, editado aqui no Brasil pela Companhia das Letras. O volume dois 2 está previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano nos EUA. Não vejo a hora dele chegar por aqui também.

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Livro enviado pela editora

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