Resenha – 1222
por Patricia
em 14/03/16

Nota:

1222

1222 começa com um acidente de trem em Finse, uma cidade pequena da Noruega. No meio de um inverno que promete ser um dos piores da região, os sobreviventes acabam isolados em um hotel onde esperam o resgate chegar. Só que a cada dia que passa, a neve aumenta e o isolamento do grupo começa a trazer resultados complicados.

De repente, um pastor aparece morto. Depois, outro. E ainda um executivo morre ao tentar pular da janela para alcançar o snowboard e tentar chegar à outra cidade. Com os nervos em frangalhos e o medo aumentando à medida que compreendem o que está acontecendo, as pessoas começam a virar-se umas contras às outras.

No meio disso tudo temos Hanne Wilhelmsen – uma policial aposentada graças a um tiro nas costas que levou durante um caso ficando com as pernas paralisadas. Além das pernas Hanne também, aparentemente, perdeu a personalidade. Não há uma grama de empatia possível com essa personagem nas primeiras quase 200 páginas do livro.

Claro que será Hanne quem vai solucionar todo o mistério a partir de seu poder de dedução estranho e muitos litros de café.

***

Existe um movimento interessante nos mercados de entretenimento que agora começa a aparecer, lamentavelmente, no mercado livreiro: quando pretende-se criar um novo fenômeno, vende-se como o novo “x”. Vemos muito isso na indústria da música, principalmente. Se o fenômeno a ser recriado é, digamos, Madonna…todas as novas cantoras serão “a nova Madonna”. Pense bem quantas cantoras jovens foram chamadas de A nova Madonna antes mesmo de você saber o nome delas completo.

Anne Holt é uma autora norueguesa de literatura policial. 1222 foi lançado em seu país de origem em 2007 e foi o último volume da série Hanne Wilhelmsen – personagem principal. Portanto, aqui no Brasil, começamos do final (se é que pretendem lançar os demais livros da série). A capa de 1222 é bela e foi o que, inicialmente, chamou minha atenção. Mas foi aquela chamada ali em cima, feito no compasso para vender livros, o que me fez ler o livro com uma certa descrença.

Sobre Larsson, não sei nem por onde começar. É uma comparação tão bizarra que fico pensando se quem disse isso realmente leu a obra do autor. A protagonista dele – Lisbeth Salander – é realmente interessante. Ela tem uma personalidade clara e instigante e o enredo da série com Salander me pareceu bem amarrado e cheio de reviravoltas que, claro, estão ali para prender o leitor e rendem uma leitura, no mínimo, divertida. Há algumas similaridades, na questão de que ambas preferem manter-se isoladas e os respectivos autores criaram uma história para elas que é baseada em momentos tristes e problemas de relacionamento. Essa é a única comparação cabível entre ambas.

A comparação com Agatha Christie, porém, é a que realmente tira Anne Holt do jogo. A literatura policial nasceu com Christie. E, como acontece com os pioneiros, ela criou as regras e os cenários que AINDA influenciam esse jogo. E nesse gênero fica ainda mais difícil de criar algo novo porque há certas limitações – a menos que você incorpore traços de outros gêneros (romances, características sobrenaturais, etc).

A verdade é que literatura policial é quase que puramente uma literatura de entretenimento. E quando feita de maneira correta, pode cumprir seu papel realmente bem. Isso, Agatha Christie continua fazendo até hoje com enredos simples, mas que ainda podem render uma experiência boa (bom, não no meu caso):

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Aliás, já que citei Três ratos cegos, vale dizer que o enredo desta obra consiste de algumas pessoas presas em um hotel depois de uma nevasca forte quando todos os contatos com o mundo exterior são cortados e eles descobrem-se presos com um assassino.  ¯\_(ツ)_/¯

Essa tentativa, portanto, de vender gato por lebre falhou miseravelmente com Anne Holt e 1222. Quem quer que tenha decidido usar a estratégia da comparação, piorou a situação da autora. Talvez sem ter Christie como base, o livro pudesse ter rendido mais alguma coisa.

***

1222 é um livro sem qualquer componente interessante. Em alguns momentos, jurava que estava lendo uma autora iniciante – o que pode ser, em parte, graças à tradução e revisão recheada de falhas. Mas os furos no enredo e a tentativa de criar momentos dramáticos sem sucesso, fazem com que o livro seja realmente um compilado de lugares comuns desse gênero.

Nem entreteu, nem surpreendeu. Um caso clássico de capa bonita feita para disfarçar um conteúdo ruim.

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