Resenha – 1984
por Bruno Lisboa
em 12/04/21

Nota:

1984 é um dos maiores clássicos da literatura de ontem e de hoje graças a sua narrativa simples, mas que tem elementos que são (para o bem ou para o mal) atemporais. Prova disso, é que a obra vai e volta aos holofotes dos leitores e à nível mundial. A última, e mais recente, é devido ao fato de que a obra se tornou domínio público no Brasil e isto fez com que diversas editoras lançassem novas versões desta e outras obras de George Orwell. Antes de tudo vale aqui lembrar que 1984 foi a última obra lançada por Orwell que faleceria meses mais tarde.

A narrativa em si é simples, num misto de romance e thriller, mas ela traz elementos substanciais que a transcendem. Na mesma, Winston Smith, personagem central, é um homem com uma vida regrada e que trabalha no Ministério da Verdade, espaço em que a falsificação do passado é uma prática comum, através da manipulação de documentos públicos e da literatura, omitindo assim a verdade. Smith fica cada vez mais desiludido, mas após conhecer a jovem e rebelde Julia, o ideal revolucionário torna cada vez mais latente e assim começa uma rebelião contra o sistema. Mas se a estrutura não traz novidade o contexto em si é poderoso.

Na obra o autor traz à tona toda uma carga política, ligada a uma crítica feroz ao autoritarismo político e a toda a forma de extremismo. E é justamente o fato de trabalhar de sob esta ótica que faz com que a obra siga até hoje servindo de referência para a a sociedade. O painel criado por Orwell traz a humanidade vivendo de forma segregada, onde as classes mais pobres vivem de maneira regrada em todos os sentidos, tendo sua vida tolhida pela opressão do Grande Irmão, uma entidade que massacra aqueles pensam e agem de maneira contrária a sua ideologia.

O caráter visionário da obra é impresso através de uma construção social que acaba por ser especular a nossa realidade. No enredo temos um mundo em constante conflito, regido pelo ódio gratuito, preso a um estado permanente de vigilância e com o cerceamento das liberdades individuais. E para manter tudo como está, o governo criou ministérios que manipulam e distorcem o passado para construir uma falsa sensação de bem estar social, que faz com que as massas aceitem tudo como está. Como contra ponto a situação opressora de Orwell faz de Winston um herói revolucionário que luta contra o totalitarismo, que acredita que o poder da mudança reside na mobilização social das classes mais pobres (os proletas) para a criação de um mundo mais justo e fraterno .

Para além da narrativa a edição de 2019 contém textos adicionais com críticas e ensaios de nomes Golo Mann, Irving Howe, Raymond Williams, Thomas Pynchon, Homi K. Bhabha, Martha C. Nussbaum, Bernard Crick e George Packer que ajudam a compreender ainda mais as potencialidades do livro

Em tempos sombrios como os nossos, obras ficcionais como “1984” trazem visões de uma sociedade que caminha a passos largos para a barbárie social e acaba por ser, como já dito, um triste e temerário retrato da contemporaneidade. Este fator, por si só, serve de alerta para que a humanidade (ou que resta dela) se atente para não deixar que a distopia de outrora torne-se realidade.

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