Resenha – 26 poetas hoje / As 29 poetas hoje
por Juliana Costa Cunha
em 14/06/21

Nota:

O ano era 1974 e Heolisa Buarque de Hollanda, tendo como parceiros na empreitada os poetas Cacaso e Francisco Alvim, lançou a antologia 26 poetas hoje. Um marco à época, colocando na cena literária nomes como Ana Cristina Cesar, Torquato Neto, Roberto Piva, Chacal, Roberto Schwarz, Leila Miccolis, entre outras(os). Esta antologia ficou consagrada como a obra que lançou a ideia da poesia marginal ou “geração mimeógrafo”. E, dessa forma, a obra consagrou-se no meio literário.

Em 26 poetas hoje Heloisa fez vir à tona uma poesia fora do cânone que foi produzida e distribuída pelas(os) próprias(os) poetas nas rodas de amigas(os) e nas mesas dos bares. Porém, hoje já se reconsidera algumas das decisões tomadas pela autora, à época da primeira edição, como a junção de poetas anacrônicos em estilo e pensamento, bem como a ausência do registro histórico ao período da ditadura militar no qual o lançamento do livro estava inserido. Esta mea culpa, a própria Heloisa faz no posfácio da segunda edição da antologia. Ressalvas à parte, não fazem a obra perder seu fôlego até mesmo em nossos dias. Em 2021 a Companhia das Letras, acompanhando o lançamento do As 29 poetas hoje, relança através do selo Poesia de Bolso esta obra. Reafirmando sua importância e sua atemporalidade.

psicografia

“Também eu saio à revelia

e procuro uma síntese nas demoras

cato obsessões com fria têmpera e digo

do coração: não soube e digo

da palavra: não digo (não posso ainda acreditar

na vida) e demito o verso como quem acena

e vivo como quem despede a raiva de ter visto”

Ana Cristina Cesar – p. 150
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Se em 26 poetas hoje, apenas 5 eram mulheres, em As 29 poetas hoje Heloisa dá o tom já no título. Provocada pela quarta onda feminista, a autora começou a se questionar sobre uma poesia feminista e se seria possível nomear a poesia feita por mulheres como feminina. Em suas pesquisas e discussões, definiu então que prefere “pensar no impacto do feminismo nessa nova geração de mulheres”. E foi com essa proposta que mergulhou na poesia escrita por mulheres, todas contemporâneas e afetadas por esta nova onda feminista.

No prefácio desta antologia, fica evidente que Ana Cristina Cesar é a poeta inspiração para esta nova geração, pois ela traça uma poesia criativa, direta e com estilo próprio. Segundo Heloisa o trabalho de Ana C. “reinventa o lugar da poesia e enfrenta um momento de alta voltagem conservadora”. Outro destaque que Heloisa faz no prefácio, refere-se à produção de leituras e performances públicas (obviamente antes da pandemia), através de saraus e slams. E nisso esta edição é um espetáculo, pois ao término de cada bloco de poesias de uma poeta tem um QR code, onde podemos acessar as poetas lendo suas poesias. Ou seria, declamando? Ou performando?

Muitas das poetas que estão nesta antologia eu já conheço e acompanho. Outras me foram apresentadas por ela. E outras ainda achei que deveriam estar, mas ficaram de fora, a exemplo de tantas poetas do Nordeste ainda em minoria nesta antologia. E isto é a força e a limitação de uma antologia. Ela jamais dará conta do todo. Jamais será uma unanimidade. Mas sempre será representativa de uma época e deixará gostinho de quero mais.

no percurso de negar corações

tentei pegar um atalho

burlar as flores e conchas

pisando em receio-cascalho

peguei carona no forró profano

alcoolizada de medos

pra reduzir os danos

fui ficando

caí no caminho mais longo

e só apenas por ali

te seguindo e vendo partir

de todos os detalhes

desse amor impensado

o sentimento tropeçado

de quando beijei teu sexo

enlacei teu abraço

de carona no rap sagrado

lado a lado

rastreei os teus passos

Bell Puã
(Recife, 1993)

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Livro enviado pela editora

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