Resenha – A abadia de Northanger
por Patricia
em 02/09/13

Nota:

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Catherine Morland faz parte de uma família enorme – 10 irmãos. Ela é descrita como não muito bonita e uma moleca que prefere correr na rua do que aprender as maneiras de uma mocinha de respeito. Sua família não tem muitos recursos mas se mantém razoavelmente bem. Um belo dia ela é convidada a passar um tempo na casa do influente casal Allen na cidade de Bath.

Em Bath, Catherine vai participar de bailes, ir ao teatro, ouvir música clássica e conhecer, pela primeira vez, os roteiros da alta sociedade. Sentindo-se isolada e temerosa de que não chame a atenção de nenhum homem, ela passa a maior parte do tempo próxima à Sra. Allen. Aliás, a Sra. Allen é um protótipo interessante de alta sociedade em decadência. Ela não conhece quase ninguém em Bath e quando encontra pessoas que reconhece, imediatamente os compara a ela e se estão no mesmo nível ou em nível inferior, ela fica feliz. “Para completar sua boa sorte, encontrou estes amigos não tão bem vestidos quanto ela.”

É sempre interessante ver um rico caindo na pobreza e o despeito generalizado que se segue.

Catherine, imediatamente, torna-se amiga de Isabella – filha mais velha da Sra. Thorpe. A Sra. Thorpe é viúva e conheceu a Sra. Allen há muito tempo. Ela fala apenas de suas filhas enquanto a Sra. Allen só fala de vestidos. Uma boa dupla. Catherine e Isabella viram inseparáveis e fazem tudo juntas. Elas dividem, entre outras coisas, um gosto específico por livros de suspense e terror que, na época, eram conhecidos como góticos por conter componentes como donzelas, vilões, cavaleiros, castelos, igrejas, profecias, maldições e etc.

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Em um baile, Catherine conhece Henry Tilney e fica encantada. Ele é o primeiro homem que atrai sua atenção. Só que o irmão de Isabella, James, se encanta com Catherine e o irmão de Catherine acaba interessado em Isabella. É uma bagunça amorosa como sempre encontramos na juventude.

Estamos falando de uma época em que as meninas viviam para agradar e casar. Eram criadas para isso. Portanto, quanto mais bem educadas mais chances teriam de encontrar um marido cujo dote seria alto e proveria uma vida luxuosa sem preocupações além de contratar uma nova copeira ou comprar mais um vestido de seda.  Para isso, a tia Jane dá uma dica legal: “Quando as pessoas querem conquistar, devem ser sempre ignorantes. Chegar com uma mente bem informada é chegar com uma inabilidade de administrar a vaidade dos outros, o que uma pessoa sensível sempre quer evitar. Uma mulher, especialmente se ela tem o infortúnio de saber tudo, deve ocultar seus conhecimentos o melhor que puder.”

Então é isso, meninas. Se vocês querem conquistar um homem, finjam-se de burras. Principalmente se você for mais inteligente que ele.

Claro que numa época em que ironias podiam passar despercebidas, ela logo emenda:  “Embora, para a maior e mais insignificante parte do sexo deles, a imbecilidade das mulheres seja um grande aprimoramento do charme pessoal delas, há uma grande porção deles, racional o bastante e bem informada o bastante, para desejar alguma coisa mais em uma mulher do que a ignorância.

Mas vamos voltar ao livro porque esse post não é uma lista de dicas de encontros amorosos.

Os Tilney convidam Catherine para passar uma temporada com eles já que ela e a irmã de Henry viraram amigas (através de uma estratégia de manipulação muito bem executada). Quando descobre que a família vive em uma Abadia, a mente de Catherine delira. Como fã de histórias góticas, morar em uma abadia seria praticamente viver em um cenário típico das histórias de seus livros preferidos. Aliás, quando Catherine chega na abadia, o livro assume um tom gótico de suspense quando descreve a forma como ela interpreta tudo o que vê, usando sua imaginação de leitora. Por alguns capítulos, temos um livro dentro de um livro.

A boa notícia é que Jane Austen escreve muito bem e mesmo com seus diálogos rebuscados, você consegue entender tudo o que está acontecendo. Ela deixa tudo às claras para o leitor. É um YA de sua época, uma aula de como criar histórias adolescentes sem irritar totalmente o leitor. Claro, temos algumas passagens que são exageradamente adolescentes, mas é só lembrar de seus 14-15 anos para ver que os diálogos que você trocou naquela época não eram tão excelentes assim (pense bem).

Dá para sentir a ironia de Austen, principalmente em Isabella que quer casar por amor, mas não deixa de ficar #chatiada quando seu noivo não consegue um dote muito alto. O livro prende, a história é divertida e para quem quer conhecer Jane Austen mas ainda não leu nada dela, esse pode ser um bom começo já que é mais leve que os demais romances da autora  (ainda que eu recomenda de todo coração Orgulho e Preconceito porque todo mundo no mundo precisa conhecer o Sr. Darcy).

Austen faz uma defesa categórica do romance de heroína nesse livro. Ela destina alguns parágrafos para dizer justamente que as heroínas devem proteger-se entre si e que ela repudia os romancistas que diminuem sem próprio trabalho para serem aceitos pelos críticos. Principalmente porque, na época, romances escritos por mulheres eram considerados inferiores. Em algumas páginas, Jane samba na cara dos críticos e dos autores que se acham superiores só por não escreverem romances (ou por serem homens).

Se você está preocupado em ler um romance pela linguagem difícil, pode ler A abadia de Northanger tranquilamente. Austen não exagera nas palavras da época e sua escrita flui fácil e tranquila. Leia que vale. 😉

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