Resenha – A autobiografia de Alice B. Toklas
por Patricia
em 09/09/13

Nota:

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Comprei esse livro sem saber muito sobre quem era Alice B. Toklas e porque a Gertrude Stein estava publicando em seu nome a autobiografia de outra pessoa. Então, achei que era uma ficção diferente que ela criou do tipo de livro que te dá um nó na cabeça só pelo gosto de confundir o leitor. Mas o buraco é mais embaixo.

Alice B. Toklas realmente existiu. Ela foi parceira de Stein por vinte e cinco anos. As duas eram americanas mas se conheceram na Paris de 1920 enquanto a cidade explodia de cultura e talento por todos os lados. Stein tinha amigos como Picasso, Matisse, Hemingway e outros que se tornaram referência em suas respectivas áreas. Picasso pintou um retrato dela:

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Quem é fã de Woody Allen deve ter assistido Meia Noite em Paris (e se você não assistiu ainda, faça isso o quanto antes). No filme, o protagonista volta no tempo e acaba na casa de uma adorável Senhora que o ajuda com seu manuscrito e parece ser quase uma agente literária e de arte criticando a obra de Picasso e Hemingway. Essa Senhora é Gertrude Stein.

Ela viveu a vida que muitas pessoas podem apenas sonhar. Imersa em cultura e jantando com gênios de sua geração.

Em A Autobiografia de Alice B. Toklas, Stein se utiliza de uma manobra marota: ela usa a companheira para contar sua própria história e dizer coisas como “Conheci apenas três gênios na vida: Picasso, Whitehead e Gertrude Stein” sem soar grosseiro ou metido demais. É divertido quando percebemos quem realmente escreveu o livro. E é sensacional pensar na vida dessas pessoas antes delas tornarem-se sinônimos de obras de milhões de dólares. Saber que Matisse, por exemplo, passou necessidade e que Picasso comprava os próprios quadros é algo que eu, como “desconhecedora” de arte no geral, não imaginava.

Aliás, taí uma coisa que vale a pena falar: esse livro vai ser de encher os olhos de quem é fã de arte. Stein estava lá para o surgimento do cubismo, as críticas e as personalidades exuberantes dos artistas que se aglomeravam em Paris procurando glamour e glória.

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Stein conta sua história como alguém que está contando pessoalmente na mesa do bar. Ela repete palavras, vai e volta no tempo, parece lembrar de algumas coisas no último minuto e complementa uma história anterior…coisas que podem nos acontecer depois de uma cerveja ou duas. É justamente por isso que ela faz parte do movimento modernista na literatura que quebrava com os parâmetros que formavam o padrão literário de enredos lineares e formatados da mesma maneira. A arte foi a precursora desse movimento e dada sua proximidade com pintores, claramente, algo modernista respingou em Stein.

E apesar de ser intitulado “autobiografia” o livro não conta a vida de Gertrude Stein da maneira que uma autobiografia normal o faz. Stein nos conta basicamente sobre sua vida apenas em determinados momentos. O irmão dela aparece em várias partes mas não sabemos o nome dele, por exemplo.

Esse livro faz parte da coleção Mulheres Modernistas da Cosac Naify que está lindíssima. A edição é minimalista: não tem blurps, resumos, comentários nem na parte de dentro, nem na parte de trás do livro. É só um belo livro de capa dura e sua história. Sem firulas. Mais ou menos como Stein parecia ser e defintivamente como ela escreve. O livro é divertido pois tal como os amigos de Stein, ele pinta uma época em que a criatividade parecia estar solta no ar ou como um sabor na água. É realmente impressionante o tanto de gente boa que viveu na mesma época e se conhecia de alguma maneira.

É um livro para voltar no tempo tal como Woody Allen tão primorosamente nos mostrou.

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