Resenha – A casa das belas adormecidas
por Patricia
em 18/06/21

Nota:

Percebi que precisava ler mais literatura japonesa depois que li Voragem do Junichiro Tanizaki e adorei (tem um ep. dedicado a ele no nosso podcast). Em minhas pesquisas, um nome que surgia o tempo todo foi Yasunari Kawabata, o Nobel de Literatura de 1968, primeiro autor japonês a receber o prêmio. No Brasil, diversas obras do autor foram traduzidas pela Estacão Liberdade.

Decidi começar minha jornada pelas obras do autor por A casa das belas adormecidas.

Aqui temos Eguchi, um homem de 67 anos que precisa lidar com a velhice e o enorme contraste que ela parece trazer com sua vida jovem. Ele ouve de um amigo algo sobre um estranha casa, um lugar onde ele poderia dormir ao lado de mulheres. Eguchi visita a casa e descobre algo fora do comum: as mulheres são jovens virgens que dormem profundamente, sem acordar em nenhum momento da noite.

Essas meninas estão nuas e não saberão nem mesmo quem são seus “clientes”. Aos homens, todos velhos como Eguchi (a quem ele chama de decrépitos), resta o prazer de deitar ali e visualizar a juventude. Nada pode ser feito às garotas exceto olhar e tocar. E mesmo isso parece trazer certo tabu.

Eguchi ultrapassa rapidamente a estranheza da situação e, enquanto se prepara para dormir ao lado de uma bela adormecida, ele relembra causos de sua juventude. Grande parte dessas lembranças gira em torno de suas aventuras sexuais na juventude.

***

Posto o tema, é claro que o desconforto do leitor é esperado. Qual o sentido para um velho precisar se deitar ao lado de uma jovem nua adormecida para….qualquer coisa? Esse desconforto fica ainda mais intenso em passagens em que Eguchi toca o corpo da jovem, ou se questiona como seria esganá-la, ou “quebrar o tabu da casa” (ou seja, estuprá-la), ou ainda, quando ele vê sedução em uma jovem que simplesmente dorme:

Acordada ou adormecida, essa garota por si só seduzia um homem. Se ele quebrasse o tabu da casa, seria possível dizer que foi por causa dela. (pág. 44)

A palavra estupro não aparece em lugar nenhum. Nem quando Eguchi se recorda que sua filha teve uma experiência triste com um pretendente que “tomou sua virgindade”. Tudo é levemente nebuloso.

Como acompanhamos as lembranças de Eguchi, fica claro que o que essa casa representa é um veículo para esse velhos tentarem reviver seus “tempos de glória” ou o que, em suas opiniões, o tornavam mais homens do que são agora. Também é possível analisar como os corpos femininos deixam de pertencer às suas donas assim que homens precisam/decidem usá-los e como o medo da morte aproxima as pessoas de suas versões mais primordiais.

É impressionante que todas essas análises possam ser feitas a partir de um livro de 125 páginas. A construção do autor é certeira para usar o desconforto do leitor a favor de seu enredo. Não queremos ler sobre um ato violento, mas não conseguimos para de ler justamente porque esperamos por ele. E Kawabata sabe disso porque ao nos contar a história da filha de Eguchi, ele mesmo colocou ao leitor o que pode acontecer com o corpo de uma mulher na mão de um homem mal intencionado. Ele sabe o que o leitor vai pensar assim que Eguchi deitar em uma daquelas camas pela primeira vez.

O que vem junto com esse desconforto é a belíssima prosa de Kawabata, que transforma o inominável quase em poesia. Ele não quer redimir Eguchi de seus pensamentos tolos e insensatos (aliás alguns fazem com o que o leitor goste menos e menos do protagonista), mas demonstrar ao leitor que eles simplesmente estão ali porque tudo existe junto: o grotesco convivendo com o belo e inocente.

O livro foi uma das principais inspirações para Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez, que também analisa os desejos sexuais de um velho de cara com a morte.

Com certeza não será o último Kawabata que leio.

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