Resenha – A casa do céu
por Patricia
em 01/09/14

Nota:

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Certas situações na vida são difíceis de imaginar. Algumas coisas acontecem tão rápido e sem qualquer aviso que podem deixar desnorteado as pessoas mais experientes. Amanda Lindhout era jovem quando saiu de casa. Aos 17 anos, precisava escapar da atmosfera intensa na qual vivia com os irmãos e o namorado 11 anos mais novo que a mãe que resolvia bater nela de vez em quando. As brigas eram quase constantes, o quebra quebra era geral e Amanda aprendeu desde muito cedo a se fechar na própria cabeça.

Por alguns meses ela trabalhava para rechear a conta como garçonete e depois passava outros meses se jogando nos países mais exóticos que conseguia pensar. A primeira viagem dela foi para a Venezuela. A segunda, para o sul da Ásia. Na próxima, já estava caminhando por lugares difíceis de achar no mapa como Bangladesh.

Ela deseja ser correspondente de regiões de guerra ou críticas. Com seu conhecimento de mochileira, acha que é só questão de achar a oportunidade certa.

A estratégia seria encontrar um país em situação crítica que não tivesse chamado muito a atenção das grandes redes de notícia de modo que ela pudesse fazer matérias diferentes e quase inéditas. Em suas pesquisas, ela encontrou a Somália que atravessava uma guerra civil intensa. Os fundamentalistas islâmicos divididos em grupos não chegavam a um acordo sobre quem deveria liderar o país. O conflito se arrastava desde 1991 (no livro estamos falando de meados dos anos 2000) e as grandes organizações internacionais estavam desistindo de tentar ajudar já que as milícias assassinavam os motoristas dos caminhões com comida e remédio e levavam o carregamento para o mercado negro deixando milhões de somalianos morrendo de fome.

Seria, realmente, uma ótima escolha para uma jornalista em início de carreira. Se tivesse o mínimo de estrutura.

Em menos de 5 dias na Somália, Amanda e seu amigo Nigel são sequestrados por um grupo fundamentalista que usa o  sequestro de ocidentais para financiar suas ações pelo país. No cativeiro, eles tiveram um gosto amargo da realidade islâmica. Por algum tempo, os meninos (todos pareciam ter menos de 18 anos) pareciam respeitar os prisioneiros. Isso mudou depois de alguns meses e Amanda passou a ser estuprada cotidianamente por um deles. Desesperada, ela e Nigel decidem tentar fugir. Só que não conseguem ir muito longe e quando são presos novamente, a situação piora. Enquanto antes apenas um soldado a visitava em seu quarto, agora todos se sentem no direito de fazê-lo já que ela tentou denunciar a todos por estupro. E todos estavam respaldados pelo Alcorão que diz que uma mulher presa deixa de ser considerada “inocente” e pode ser usada por qualquer um como se fosse sua “esposa”. Ou seja, qualquer homem é livre para estuprá-la sem medo de repercussões.

Mais do que um livro que flui, esse foi um livro que me carregou com ele. Li as quase 500 páginas em 2 dias parando apenas para fazer comida, tomar banho e, infelizmente, trabalhar. Em nenhum momento fiquei cansada da história – algo que normalmente acontece quando dedico mais de 3-4 horas ao mesmo livro. No primeiro dia, li quase 12 horas seguidas, sem querer parar. As palavras de Lindhout com o toque de Corbett trouxeram um tom tão realista, sincero e objetivo ao livro que era impossível não sentir a atmosfera tensa e não imaginar exatamente o que acontecia. Ainda mais como mulher que teme passar por coisas similares.

O fato de Amanda ter coragem para contar tudo isso e ainda demonstrar compaixão por seus algozes é absolutamente fenomenal. Enquanto tudo acontecia, ela conseguia ter a paz de espírito de entender que ali haviam várias vítimas além dela mesma. E, no fim, foi isso que salvou sua sanidade e a manteve inteira. Além, claro, de evitar que ela se afogasse em um ódio que poderia ser compreensível.

Livro denso, mas incrível.

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