Resenha – A casa soturna
por Patricia
em 05/04/21

Nota:

Dickens é normalmente considerado o maior escritor da era vitoriana. Seus trabalhos agradavam tanto o povo mais simples quanto a aristocracia. Por conta de seus enredos, que abarcavam também várias camadas da sociedade, ele era visto como um grande comentarista social, muitas vezes expondo o que pouco se discutia. A literatura, acreditava ele, poderia e deveria servir para estimular algo na consciência social.

Entre 1852-53, ele publicou de forma serial, uma de suas obras mais aclamadas: A casa soturna que gira em torno da família Jarndyce que espera o resultado de um litígio iniciado décadas antes tornando-se o processo em andamento mais antigo da Corte. Tão antigo, aliás, que é motivo de chacota de advogados e juízes. O problema do processo é que temos diversos testamentos e eles são conflitantes.

A lista de personagens se dá a perde vista, mas o enredo central é sobre Ester Summerson – uma jovem órfã criada pela tia que não a tratava muito bem e, com a morte dessa tia, vai morar com um benfeitor que pagou por parte de sua educação: John Jarndyce e seus sobrinhos Ada e Richard. Ester vai trabalhar como dama de companhia de Ada e como governanta da casa. Ada e Richard se apaixonam mas John pede que ele decida sua profissão de forma a ter uma carreira antes do casamento.

Em outro núcleo, temos Lady Deadlock casada com seu terceiro marido, Sir Leicester. Ela teve um caso no passado e acabou grávida, mas acredita que a criança está morta. Ela também tem uma parte no caso Jarndyce e o inescrupuloso advogado Tulkinghorn cuida dos interesses da família. Ele nota que Lady Deadlock reconhece a caligrafia de uma das anotações no processo e fica lívida e decide investigar o que causou essa reação.

Lady Deadlock também decidiu investigar aquela caligrafia e se passa por sua empregada Hortense para visitar o que podemos descrever como uma favela de onde, aparentemente, a nota veio.

Enquanto isso, Richard está sendo consumido pelo processo. Ele contrata um advogado para tentar concluir a coisa toda o mais rápido possível e, nesse meio tempo, gasta o que tem e o que não tem.

Tudo isso vai culminar em assassinato, a descoberta de passados sórdidos, mortes por doença e uma conclusão lamentável do caso Jarndyce.

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Dickens usou um caso real como inspiração para o processo Jarndyce: um caso que havia começado em 1787 e ainda estava em andamento (foi concluído em 1859 – anos depois do livro ser lançado). A critica ao sistema judiciário e sua pouca intenção de apoiar a justiça é escancarada desde o começo.

Esta é a Corte de Justiça que tem casas decadentes e terras estéreis em cada condado; que tem seus malucos alquebrados em cada hospício e seus mortos em cada cemitério; que tem seus demandantes arruinados, de calcanhares cambados e roupas coçadas, correndo a roda dos conhecidos, a fazer empréstimos e a pedir dinheiro; que dá aos poderosos endinheirados os meios abundantes de fatigar o direito; que de tal modo exaure finanças, paciência, coragem e esperança, de tal modo arruína o cérebro e destroça o coração, que entre seus profissionais não existe um homem honrado que não dê – que muitas vezes não dê – o seguinte conselho: ‘Suporte toda e qualquer injustiça que lhe hajam feito, em ver de vir pedir justiça aqui.’ (pág. 8)

– Ai está! – disse o sr. Gridley, sem diminuir sua raiva. – O sistema! Dizem, de todos os lados, que é o sistema! Eu não devo considerar indivíduos. É o sistema. Não devo comparecer ao Tribunal e dizer ‘Ex.mo sr. juiz, rogo-lhe que me diga o seguinte: está direito ou errado? Quer dizer-me, sem subterfúgios, que recebi justiça e que portanto estou dispensado? O Ex.mo juiz nada sabe. Está ali para administrar o sistema. (pág. 198)

Algumas críticas aparecem em imagens satíricas claras porque Dickens usa imagens muito perspicazes: quando Mr. Vholes, advogado de Richard, vai cobrar o honorário – Dickens nos avisa que, ali no canto, há um gato olhando ameaçadoramente para um rato. A morte do Chanceler é descrita como combustão espontânea que, segundo o autor, é a única forma de se morrer em um lugar onde “se pratiquem atos fraudulentos e onde se cometa injustiça”; ou seja, uma morte que não será investigada ou terá um culpado. Karma em pura forma.

Em Ester Summerson ele reforça a importância da vida caseira e da dedicação aos outros. Mesmo quando desfigurada por uma doença (presume-se caxumba) ela segue como uma pessoa bondosa e preocupada com os demais. O exemplo da boa moça da era vitoriana, a ‘bela, recatada e do lar’ de seu tempo – focada em manter sua casa cuidada, a família feliz e nada mais. Ester é a única personagem que ganha capítulos narrados em primeira pessoa.

Há um forte contraste entre a imagem de Ester e a de mulheres pobres que embalam crianças mortas de fome, apanham de seus maridos, são traídas e abandonadas, e crianças que não tem infância por viverem em uma pobreza que mal se pode descrever.

Judite nunca possuiu uma boneca, nunca ouviu falar na Gata Borralheira, nunca brincou em qualquer jogo. Uma ou duas vezes teve ocasião de ver-se em companhia das crianças, quando tinha uns dez anos de idade, mas as crianças não podiam combinar com Judite, e Judite não podia combinar com as crianças. Parecia um animal de outra espécie, e havia, tanto de uma parte como de outra, instintiva repugnância. É bastante duvidoso que Judite saiba rir. Tão raramente tem visto alguém rir, que há fortes probabilidades de que não o saiba. (pág. 264)

Alguns críticos listam “A casa soturna” como a melhor obra de Dickens. Stephen King o coloca entre seus livros preferidos e acredita-se que a obra reforçou a importância e urgência de uma reforma judiciária que ocorreu, de fato, em 1870.

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A experiência de ler um “A casa soturna” é realmente boa. O que é lamentável é que nesta edição (a única hoje disponível no Brasil) da Nova Fronteira, temos uma tradução de 1946 sem qualquer tipo de revisão ou adaptação para a gramática e termos atuais.

A tradução dos nomes próprios é risível e nos brinda com momentos como “Miguel Jackson”. Ler Dickens com nomes em português é ridículo e estranho fazendo com que nos deparemos com coisas como: Ricardo discutiu com João sobre o que fazer com Haroldo, por exemplo, em um livro que se passa na era vitoriana e que o autor trata de contextualizar com tanto cuidado. Nomes próprios são parte integral dessa contextualização. Há diálogos que não estão marcados e termos antigos aparecem pelo livro todo, nos dando pérolas como: “pega na pena como no cacete portátil que traz sempre consigo”.

Temos cinco pessoas listadas como revisores do livro e tudo isso passou por todas em um livro que é vendido, na média, por mais de 60 reais. É lamentável o descuido e a falta de interesse de fazer um trabalho bem cuidado.

A sorte da Nova Fronteira é que Dickens mesmo quando é ruim, ainda é melhor que muita coisa. Não vou tirar nota do livro por conta dessa edição terrível mas recomendo que você espere uma edição melhor – talvez com uma tradução mais atual e devidamente revisada como Dickens merece.

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