Resenha – A Ditadura Envergonhada
por Patricia
em 14/04/14

Nota:

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O primeiro livro da célebre série de Elio Gaspari sobre a Ditadura estava sentado na minha estante há bastante tempo. Talvez pelo tamanho, talvez pelo assunto, eu tenha evitado ler a obra até agora. Continuando com o mês de resenhas sobre a Ditadura, decidi que já era hora de colocar Gaspari em atividade. Lendo a Introdução, percebi rapidamente que havia feito a escolha certa. Em essência, essa frase diz muito sobre o que o leitor encontrará nas páginas:

“O objetivo desta obra é contar por que e como Geisel e Golbery, dois militares que estiveram na origem da conspiração de 1964 e no centro do primeiro governo constituído após sua vitória, retornaram ao poder dez anos depois, com o propósito de desmontar a ditadura.”

Pois bem. Diferente dos livros que resenhei anteriormente,  A Ditadura Envergonhada vai passar pelo planejamento do golpe, o auxílio dos Estados Unidos, as bases a favor e contra Jango, a manutenção do poder e a construção da luta armada contra a esquerda. Desde o início, já sabemos que haviam forças por trás da organização militar que seriam implacáveis para os apoiadores de Jango: Geisel e Golbery. Ambos desenvolveram, por baixo dos panos, a estratégia e a execução do golpe militar.

E para quem ainda tem dúvida se chama de golpe ou Revolução, o próprio Geisel explica: “O que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart. Foi um movimento contra, e não por alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção. Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá. Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução.” 

Geisel, inclusive, tem em seu CV a participação em nada menos que 7 golpes de Estados desde 1930. Alguns deram certo, outros falharam. Portanto, por tentativa e erro, ele já sabia o que fazer para esse golpe em particular funcionar. O golpe de 64 teve falhas (principalmente de comunicação), mas contou com o maior trunfo de todos: o silêncio de Jango.

De fato, nos bastidores da luta de poder dizia-se que Jango estava próximo de dar um golpe próprio para garantir sua reeleição (não prevista na Constituição na época), seria um golpe à lá Vargas. Isso tudo levanta até hoje o debate “golpe ou contragolpe?”. Mas é um debate pautado por muita ideologia, o que acaba deixando-o cansativo em alguns momentos.

De qualquer maneira, os militares chegaram ao poder e precisavam articular seu próprio Estado agora. O General Costa e Silva mostrou-se dos mais ambiciosos utilizando-se de protocolos e mentiras para tentar assumir a Presidência – o fato de que isso não aconteceu logo de cara mostra que o governo militar já estava com problemas para unificar as ambições. A partir de então, o novo Governo se organizou para exilar seus oponentes e travar qualquer ação que diminuísse a aparente legitimidade militar.

Gaspari dedica uma boa quantidade de páginas para tratar do cerne da Ditadura: a tortura. Golbery e Geisel trabalharam juntos não apenas na estratégia da tomada de poder, mas também na sua manutenção que incluiu a criação do SNI (Serviço Nacional de Informações) – órgão responsável pela repressão linha dura do Governo. Três meses após a tomada de poder pelos militares, já haviam denúncias de torturas nas DOPS. Tal qual Edgar Hoover, Golbery criou um sistema em que permitia ao Governo listar e investigar seus inimigos. No entanto, diferentemente do americano que respondia a uma comissão do Congresso, Golbery respondia apenas ao Presidente e tinha status de superministro com plena liberdade de ação e orçamento milionário. Dezessete anos depois, Golbery chamaria sua criação de “monstro”.

Outros fatos bem documentados no livro são a participação do governo americano no apoio aos militares – chamando o golpe de “revolta democrática” (algo que também ficou bem evidente no documentário O dia que durou 21 anos, que já comentamos aqui no Poderoso – link abaixo) e a participação do governo cubano na ajuda à esquerda que tentou se levantar.

O livro é dividido em 3 partes: na primeira ele comenta sobre o golpe e a queda de Jango; na segunda ele nos apresenta a instituição da violência como política nacional e na terceira acompanhamos a pesquisa do autor sobre a construção da luta armada de ambos os lados. Esse primeiro volume (são quatro no total) cobre o período de 64 a 68 quando o país enfrentava não apenas uma ‘guerra revolucionária’, mas também uma crise institucional. Costa e Silva chegara ao poder, e o resultado foi desastroso. Foi nesse ano que o AI-5 entrou em vigor e transformou a guerra em terror. A Ditadura perdeu a vergonha e a tortura tornou-se política de Estado.

A pesquisa de Gaspari é realmente incrível (não é a toa que durou 18 anos). Ele cita nomes, patentes, entrevistas, livros e tudo mais. O mais impressionante é o nível das entrevistas. Ele conseguiu sentar pessoalmente com Geisel, por exemplo. Então muitas das informações que antes poderiam ser apenas especulações, ele valida ou desvalida em primeira mão. É justamente por isso que a leitura do livro flui tão bem apesar da quantidade de informações diferentes que um único parágrafo pode conter. O leitor fica preso na leitura do que parece ser quase um arquivo confidencial da História.

Um excelente pedaço de literatura jornalística, de fato.

UPDATE: Li o livro na edição antiga da Cia das Letras. Atualmente, a série foi relançada pela Intrínseca.

***

Outros posts sobre o assunto que já passaram pelo Poderoso:

*Resenha – Diário de Fernando 

*Resenha – O outro lado do poder 

*Resenha – Os infiltrados 

*Resenha – Memórias de uma guerra suja 

*Filme – O dia que durou 21 anos

*Filme – Cidadão Boilesen

*Filme – Mariguella

*Filme – O que é isso companheiro?

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