Resenha – A elegância do ouriço
por Patricia
em 07/03/16

Nota:

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A elegância do ouriço é um livro que recebeu críticas impressionantes e diversos prêmios que foram acompanhados de milhões de livros vendidos pelo mundo todo. Por curiosidade, já o havia incluído em minha lista de desejados e quando a Companhia das Letras disponibilizou a obra mais recente de Barbery (A vida dos Elfos), perguntei, com aquela cara de Gato de Botas, se podia pegar A Elegância do Ouriço antes. Para minha sorte, o pessoal da Companhia aceitou.

O livro tem capítulos alternados entre dois pontos de vistas dominantes – ou, podemos dizer, um mesmo ponto de vista de duas pessoas em situações diferentes: Renée, uma concierge (ou zeladora) de um prédio de luxo em Paris, 54 anos, viúva, “pobre e feia” como ela mesma diz. Do outro lado temos Paloma, 12 anos e meio, filha de um casal rico que mora no prédio e decidida a se matar em seu aniversário de 13 anos.

Ambas as narradoras vivem uma vida que poderia ser considerada decepcionante – Renée é uma autodidata, amante de Tolstói (seu gato chama Leon) e fã do cinema japonês. Aprendeu tudo sozinha, pois sua condição social não lhe deu esse tipo de oportunidade. Porém, para evitar chamar a atenção dos moradores do prédio – que ficariam estarrecidos de ver que a zeladora talvez soubesse mais do que eles – se finge de burra. Fala errado e vive isolada no apartamento em que dividia com o falecido marido, fingindo ser a mulher simplória que os inquilinos imaginam que seja.

Paloma, por sua vez, está desgostosa da vida no geral: sua mãe segue feliz em sua jornada pela terapia há 10 anos (acompanhada de antidepressivos); seu pai é político e um homem covarde e sua irmã temperamental não lhe dá a mínima atenção. Além disso, a família é cercada uma elite que fala coisas que mal entende. Para ela, não vale a pena continuar vivendo se esse é o futuro que lhe está reservado.

Renée é muito culta. Já leu grandes livros, gosta de temas filosóficos e também de livros policias. Ela também corrige mentalmente erros no francês alheio. Ela não admite que ricos cometam erros – de nenhum tipo. Mas nunca os corrige em voz alta, nunca na frente de um deles. Renée é a versão cinquentona e pobre de Paloma que antes de tomar seu rumo e se matar, escreve um diário sobre uma vida que, a seu ver, não tem muito sentido. Ela não se identifica com a riqueza ou com o modus operandi dos ricos apesar de não conhecer nada diferente disso.

Ambas são esnobes à sua maneira e criam uma farsa para o dia a dia.

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Há uma frase famosa de Malcolm X (ou pelo menos é atribuída a ele) que fala do cuidado que devemos tomar para não amar o opressor e odiar o oprimido. É quando o negro, netos de escravos, defende a escravidão, por exemplo. Esse contorcionismo de ideologias que vemos hoje em que termos como socialista-comunista-capitalismo-do-bem são usados na mesma frase indistintamente. Não se perde nem uma hora analisando esses termos antes de um status no Facebook ser publicado.

Essa questão de classe (opressor X oprimido) aparece a todo momento na obra. Renée analisa quase constantemente sua posição como zeladora versus os ricos inquilinos do prédio – e sim, ela leu Marx. E apesar de um prédio ser uma boa metáfora para a casta de classes na qual vivemos, mas fingimos que não, com Renée morando no andar mais baixo e o nível de riqueza subindo junto com o elevador, a constância desses comentários pode fazer o leitor questionar se Renée é uma observadora crítica ou uma pessoa que se apega às suas convicções para justificar sua vida hoje, odiando os opressores que ela acredita que a odeiam também.

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O livro é filosófico mas escrito de uma maneira acessível. E enquanto, em alguns momentos, os comentários depreciativos sobre a gramática alheia das personagens tendem a ser chatos e repetitivos, é inegável que a autora nos presenteia com um livro extremamente bem escrito – usando de uma bela escolha de palavras para expressar pensamentos dos mais simples aos mais profundos. A erudição de Renée, a curiosidade e o talento precoce de Paloma rendem uma leitura deliciosa. Os pensamentos de ambas se complementam perfeitamente para ilustrar a vida sem sentido da elite francesa (ao menos, aos olhos das nossas narradoras).

Enquanto as primeiras páginas podem se arrastar um pouco, vale a pena se manter firme pois quando se acostuma com as vozes das narradoras, o livro ganha fôlego renovado.

Grande obra.

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Já que minha fome não podia ser aplacada no jogo de interações sociais que eram inconcebíveis por minha própria condição – e compreendi isso mais tarde, essa compaixão nos olhos da minha salvadora, pois algum dia já se viu uma menina pobre penetrar na embriaguez da linguagem e nela se exercitar junto com os outros? – ela o seria nos livros. Pela primeira vez toquei num livro. Eu tinha visto os maiores da turma olharem para traços invisíveis, como que movidos pela mesma força, e, mergulhando no silêncio, tiraram do papel morto alguma coisa que parecia viva. […] A criança fraca se tornara uma alma faminta. (pág. 45)

Assim se vive a vida de homem, no nosso universo: é preciso reconstruir sem parar a própria identidade de adulto, essa montagem capenga e efêmera, tão fácil, que reveste o desespero e que, quando se está sozinho olhando para o espelho, conta a mentira em que se deve acreditar. (pág. 98)

Antoine Pallières olhou para mim com a cara do sujeito que indaga se viu bem aquilo que acabou de ver. Mas, como é treinado para considerar que só acontece o que tem de acontecer, assim como os ricos se convencem de que a vida deles segue um rastro celeste que o poder do dinheiro lhes abre naturalmente, resolveu acreditar em mim. A faculdade que temos de manipular a nós mesmos para que o pedestal de nossas crenças não vacile é um fenômeno fascinante. (pág. 115).

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O livro foi enviado pela editora.

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1 Comentário em “Resenha – A elegância do ouriço”


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Andreia em 08.11.2016 às 01:46 Responder

Ótima resenha! Também gostei muito do livro. Bjs Andreia http://www.mardevariedade.com


 

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