Resenha – A grande gripe
por Patricia
em 18/05/21

Nota:

Em março de 2020 o mundo mudou. A pandemia da covid-19 se alastrou rapidamente deixando milhares de pessoas doentes. Esse número chegaria a milhões. As mortes se acumulavam e não havia sinal de fim. Em março de 2021, quando escrevo esta resenha, o mundo começa a respirar, mas o Brasil segue afundado, diariamente batendo recorde de mortes. Um navio sem rumo. O capitão está nu. Apesar de uma pandemia nessa escala ser a primeira para gerações e gerações, não é a primeira para o mundo. E cientistas também acreditam que não será a última.

Historicamente, já ouvimos falar de algumas pandemias: a peste negra, que assolou o mundo entre 1347 e 1351, talvez seja das mais conhecidas. Em 1889, uma pandemia de gripe matou 1 milhão de pessoas. E em 1918, tivemos talvez uma das maiores pandemias de todas: a gripe espanhola – tema de A grande gripe do historiador John M. Barry.

Embora a pandemia da gripe tenha se prolongado por dois anos, talvez dois terços das mortes tenham ocorrido em um período de 24 semanas, e mais da metade dessas mortes se deu em menos tempo, de meados de setembro a início de dezembro de 1918. A gripe matou mais pessoas em um ano do que a peste bulbônica da Idade Média em um século; matou mais pessoas em 24 semanas do que a AIDS em 24 anos. (pág 13)

Mas era só uma gripe.

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Barry não quer contar apenas a história da pandemia da gripe espanhola, que, aliás, temos dados para acreditar que começou em Kansas nos Estados Unidos e não na Espanha. Ele se dispõe a pesquisar como ela começou, impactou imediatamente sistemas de saúde atrasados com médicos com formação ruim e sem preparo para lidar com pacientes.

A ciência já vinha dando grandes passos , principalmente na Europa, mas ainda estava longe de conseguir responder questões relevantes sobre doenças que assolavam a população como a cólera, por exemplo. Nos Estados Unidos, os médicos era tão mal formados que alguns mal sabiam ler e prescreviam remédios na base do achismo. Mas isso estava para mudar com duas entidades que revolucionariam a medicina no mundo todo: a Johns Hopkins University e o Rockefeller Institute for Medical Research. Além disso, o autor nos apresenta a nomes que fizeram a diferença nessa estruturação de pesquisa e, portanto, na luta que se travaria contra a gripe.

Havia ainda um outro agravante na situação: a guerra. Em 1918, quando indícios de uma pandemia despontavam, a 1ª Guerra Mundial estava para terminar mas, antes disso, decisões militares pioraram o que já estava ruim: quando entrou na guerra, o presidente americano Wilson colocou o país em uma mordaça de informação e direcionou todos os esforços para a guerra. Isso fez com que informações cruciais sobre uma possível pandemia não chegasse à população geral e os quartéis se tornaram verdadeiros eixos de gripe. A movimentação dos soldados levou a gripe ao resto do mundo. 50 milhões de pessoas morreriam e outros milhões seriam afetados.

Mas era só uma gripe.

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A corrida para a cura permanece até hoje – não existe uma vacina que possa combater todas as variações da gripe. Vimos em tempo real a rapidez com que o vírus de adapta e muda criando variantes – às vezes mais mortais.

Em A grande gripe a linha do tempo às vezes fica um pouco confusa porque o autor foca nos grandes nomes da ciência, mas isso não atrapalha a leitura do todo. Algumas partes do livro podem ser um pouco arrastadas porque entram em detalhes que, se você não for da área de biomedicina, talvez se interesse menos. Serve para mostrar que o autor se afundou mesmo na pesquisa, mas ao leitor leigo, pode soar como um didatismo um pouco exagerado.

Ainda assim, a conclusão é uma só:

A lição derradeira de 1918, uma simples e ao mesmo tempo a mais difícil de executar, é que as autoridades devem diminuir as chances de que o pânico aliene a todos. A sociedade não pode funcionar com cada um cuidando de si. Por definição, nenhuma civilização sobrevive assim. (pág. 515)

Um livro importante para o momento, principalmente para quem segue o mantra bovino de que “é só uma gripe”.

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