Resenha – A identidade
por Patricia
em 17/07/13

Nota:

a-identidade

A identidade é a história de Chantal e Jean-Marc. Chantal está passando por um momento de “crise de identidade” que consiste de perceber que os homens não prestam mais atenção nela. Eles não respondem a sua presença como, entende-se, um dia fizeram.

Chantal começa, então, a receber cartas anônimas de um admirador que diz que a segue por todos os lados por ela ser linda. Enquanto muitas pessoas poderia sem assustar com isso, Chantal sente seu ego rejuvenescer. Essa situação afeta a forma como ela se porta com estranhos e até mesmo o que ela faz dentro de sua própria casa.

Jean-Marc percebe essas alterações no humor da mulher mas atribui a isso a questão de que ela está se acostumando com a idade (ela é mais velha que ele). O enredo se desenrola para uma história que pode parecer um pouco maluca mas é bem construída. Quase como um sonho narrado perfeitamente. Ainda assim, o livro parece que enrola um pouco para suas poucas páginas.

Essencialmente, o livro trata da identidade feminina – que é um conceito difícil de se definir. No passado, a identidade feminina era estabelecida pelo que os outros achavam de determinada mulher – se os homens a achavam bonita e atraente, todos aceitavam que essa era uma verdade incontestéval e isso passava a fazer parte da própria identidade dessa mulher que, portanto, se achava também bonita e atraente. É como se os outros fossem um espelho e não importa o que ela mesma enxergasse nesse espelho, se não fosse validado pelos demais, não poderia ser verdade.

Quero acreditar que isso está mudando – apesar de ainda conhecer pessoas que vivem nesse espelho estranho. Esse é um debate longo e a questão de se definir a identidade de Chantal é secundária, o que vemos aqui é como a sociedade a moldou para esperar que olhares de completos estranhos definissem o que ela enxerga nela mesma. Soa loucura, eu sei. Mas pode acreditar que muitas das mulheres que você conhece já sentiu certo desconforto por achar que está “bonitinha” e ninguém parecer notar isso. Faça uma enquete.

Diferenciação importante: o livro não trata de como a sociedade define a mulher. Ele discorre sobre como a mulher incorpora certos conceitos e aplica isso na percepção dela mesma.

Em 120 páginas, Milan Kundera explora o universo íntimo feminino de uma maneira muito criteriosa e conhecedora. Me impressiona muito quando autores criam personagens femininas tão reais que eu reconheço as características principais e acredito que essa mulher existe. Pode soar estranho, mas muitas personagens femininas criadas por homens são exatamente isso – personagens criadas por homens. Muitas não soam reais o suficiente porque parecem ser apenas o que esse autor ACHA que ela deve ser. Chantal é crível. A leitura flui bem pela qualidade de Kundera como autor.

Kundera é o autor do sensacional A insustentável leveza do ser que eu recomendo (muito!) por tabela. 😉

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