Resenha – A jangada de pedra
por Juliana Costa Cunha
em 21/09/20

Nota:

A jangada de pedra foi escrito por Saramago no período em que Portugal e Espanha passaram a fazer parte da União Européia (UE) e publicado em 1986. Traz em si uma forte crítica do autor a este acordo em especial, do qual era expressamente contrário. Mas também, de forma geral, a todos os tratados e limites entre os países. As fronteiras, mais especificamente.

Usando do realismos mágico, Saramago faz com que a Península Ibérica se separe, literalmente, da Europa e comece a fazer Portugal e Espanha vagar por conta própria. A península é, portanto, a jangada de pedra que dá título ao livro. A jangada segue pra um lado, depois para um outro. De repente para e começa a girar sobre si mesma, deixando as pessoas sem entender mais onde é o norte ou o sul. Depois, segue girando em direção ao sul onde por fim aporta e se fixa. E é nesse trecho que Saramago traz o diálogo sobre a América invertida, sobre ter o Sul como Norte.

Durante todo o percurso da península há a grande confusão entre os países envolvidos. Há o aproveitamento político daqueles para onde parece que a jangada se desloca. Há o desespero da população por achar que ela vai se chocar em dado momento. E há também aqueles que aceitam o fato como mais um acontecimento da vida e se deslocam para tentar encontrar onde tudo começou.

As personagens principais da trama – José Anaiço, Joaquim Sassa, Pedro Orce, Joana Carda, Maria Guavaira e o cão Constante – têm seus destinos entrelaçados em função desse deslocamento da península e seguem numa viagem inusitada em busca de respostas. E, ao longo do percurso questionam suas vidas e refletem sobre deus, sociedade, normas, padrões… bem no estilo Saramo de ser. Estas personagens são responsáveis por diálogos belíssimos ao longo do livro.

Vale dizer que as personagens femininas neste livro têm papel central na história. São a força motriz do grupo e são aquelas que rompem padrões e que se dispõem da melhor forma a localizar novos jeitos de viver diante do aparente caos.

O autor coloca em questão os motivos de se fazerem tais acordos diplomáticos e as fragilidades dos mesmos. No livro, a península começa a se separar por que a personagem Joana Carda encontra um determinado graveto e com ele faz um risco no chão. Portanto, ela cria uma nova fronteira. E não à toa é uma das personagens femininas da narrativa.

Há neste livro uma forte crítica às relações sociais, tema aliás recorrente na obra do autor. Aqui ele explicita o aparente controle das autoridades sobre uma sociedade e, consequentemente, a aparente vida tranquila e regrada entre nós seres humanos. Basta o primeiro acontecimento extraordinário ocorrer para essa sociedade ordeira e pacata se desregrar.

Não é difícil imaginar que com tema tão polêmico e inusitado, Saramago nos faça rir. Sim, ele faz. É muito difícil para mim ler um livro do autor e não dar boas risadas. Aqui, sua ironia fina se volta para os costumes dos povos. Para as relações internacionais. Para os interesses envolvidos nos discursos de paz e crescimento econômico. E que as fronteiras podem separar nações e aparentemente as pessoas, mas que no momento de rompimento do que está estabelecido como padrão é importante repensar conceitos e atitudes. Romper com o que não serve mais.

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Livro enviado pela editora

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