Resenha – A maçã envenenada
por Patricia
em 04/10/16

Nota:

maca envenenada - capa do livro

 

A maçã envenenada é o livro mais recente do autor Michel Laub e foi publicado em 2013. Esse foi meu primeiro contato com o autor apesar de ter boas referências sobre ele e suas obras anteriores. Laub já ganhou diversos prêmios e o Diário da queda teve os direitos vendidos para a Turquia recentemente, totalizando adaptações para 12 países e 9 idiomas. Um excelente feito para um autor brasileiro.

Em A maça envenenada, tudo começa com o narrador pensando sobre o recente suicídio de Kurt Cobain. Em sua adolescência, ele sonhava em se tornar um músico reconhecido, um roqueiro do calibre do Nirvana de 93 – quando a banda estava no auge, saindo da cena underground para os holofotes do mainstream. O título do livro, aliás, vem de um dos versos da música Drain you: “With eyes so dilated, I’ve became your pupil/ You’ve taught me everything without a poison apple”. 

O narrador também está em treinamento no CPOR – Centro de Preparação de Oficiais de Reserva – de Porto Alegre, onde tem dias intensos de exercício físico e um tanto vazios de significado. Enquanto tenta formar uma banda, ele conhece Valéria – uma vocalista instigante com quem ele perde a virgindade. Seu relacionamento com Valéria vai lhe apresentar vários sentimentos que ele experimentará pela primeira vez: ciúme, traição, carência, depressão. Tudo isso encarnado em uma pessoa que lida com problemas muito além do que ele parece compreender. Valéria já havia tentado o suicídio algumas vezes e é assim que a história de sua vida se alinha à de Cobain. O trauma de não entender, de não saber mais, de ficar de fora pode ser extremamente difícil para os que ficam.

Em meio a tudo isso, o narrador nos apresenta a história de Immaculée Ilibagiza – jovem tutsi de Ruanda que aos 22 anos ficou presa com outras 7 mulheres em um banheiro enquanto sua família era massacrada no que ficou conhecido como um dos maiores genocídios da História recente (estima-se que entre 500 mil e 1 milhão de tutsis foram mortos no massacre que durou 100 dias). O narrador entrevistou Ilibagiza para um jornal e a história o marcou – por motivos óbvios. A história de Ilibagiza é real, aliás.

Suicídio, genocídio, acidentes fatais ou quase fatais. As tragédias são empilhadas no livro que tem a perda como fio condutor da história: Valéria perdeu a mãe quando era criança e tem uma fixação evidente em manter as pessoas ao seu lado; Cobain perdeu a vida por não aguentar mais a pressão do que vivia cotidianamente (presume-se); Ilibagiza perdeu a família inteira em um genocídio assistido pelo mundo e condenado por ninguém.

Em perspectiva, podemos dizer que a história da africana seria o ápice da tragédia. Porém, ela é a única que se ergue. A única que consegue perdoar aquele que definiu sua vida para sempre, que seguiu em frente e usou sua própria tragédia para algo maior transformando-se no símbolo de algo além da tragédia que viveu. E parece ser algo que nosso narrador deseja para si mesmo.

A escrita de Laub é despretensiosa na melhor maneira. A condução da história é crua, objetiva e bem pensada. Cada linha de enredo criada aqui se interliga de maneira razoável às outras. Foi minha introdução à Laub e, definitivamente, não será a última obra do autor que pretendo ler.

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