Resenha – A máquina do ódio
por Bruno Lisboa
em 19/10/20

Nota:

O jornalismo está sob ameaça. E talvez de fato sempre esteve. Ainda mais aquele que é compromissado com o público no exercício de trazer a verdade. Ainda mais em tempos de governos totalitários mundo a fora que, para se manter no poder, utilizam do artificio das fake news.

Mas apesar do cenário temerário a imprensa segue viva e, aos trancos e barrancos, existem profissionais que permanecem remando contra a maré de oposição, entregando matérias de cunho investigativo que trazem em si fatos que muitos não opositores não gostariam que viessem à tona. E nesta seara, sem sombra de dúvida, Patrícia Campos Mello é uma das maiores expoentes do jornalismo.

Mas muito se engana quem acha que a jornalista e escritora tenha conquistado reconhecimento na profissão. Na ativa desde 2006, Campos Mello cobriu eventos importantes como o atentado de 11 de setembro, a Guerra do Afeganistão, as eleições norte-americanas, a crise econômica de 2008, entre outros eventos históricos, que acabaram por lhe render diversas premiações.

Sua primeira incursão no universo da escrita literária foi através da obra “Índia – da miséria a potência” em 2008. Nove anos mais tarde foi a vez de “Lua de mel em Kobane”, obra biográfica sobre um casal de sírios sobrevivendo do cerco do Estado Islâmico do Iraque. Agora em 2020 é a vez de “A máquina do ódio”. Lançado pela Companhia das Letras, a autora faz um apanhado histórico de como as manifestações de ódio e as fakes news disseminados pelas redes intervém diretamente em democracias pelo globo.

Partindo de uma premissa pessoal, Campos Mello utiliza de sua experiência vivida em 2018, durante as eleições presidenciais, para a partir daí realizar um estudo mais aprofundado acerca dos mecanismos que movem as redes sociais de hoje. Para quem não se lembra, a jornalista foi vítima de perseguição e agressões devido a publicação de uma matéria sobre crimes eleitorais cometidos durante a campanha de Jair Bolsonaro, que resultaria em sua eleição.

Com ares de thriller de investigação, a jornalista conta em detalhes a investigação sobre disparos ilegais no WhatsApp, contra o PT e a favor de Bolsonaro, contratados por empresários que resultariam na matéria publicada na Folha de São Paulo em 2018 . A mesma lhe geraria uma série de ataques midiáticos por trolls, seria bombardeada por fake news usando o seu nome e imagem como também sofreria agressões verbais perpetuadas por seus detratores, incluindo a família do atual presidente do Brasil.

Mas muito se engana que A máquina do ódio esteja na ativa somente no Brasil. Como Patrícia atesta ao longo do livro as engrenagens que a movem operaram nas eleições vitoriosas de governos populistas de direita nos EUA, Índia e Hungria.

Em tempos onde a liberdade de imprensa segue ameaçada, obras como “A máquina de ódio” são autênticos manifestos em prol do compromisso com a verdade no meio jornalístico. Doa a quem doer.

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O livro foi enviado pela editora.

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