Resenha – A marca humana
por Patricia
em 08/06/15

Nota:

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Comecei a ler “A marca humana” sem grandes pretensões apesar de Roth ser extremamente aclamado. Não é incomum usarem o adjetivo gênio depois de seu nome.  Já adianto que parte dessa resenha conterá spoiler. Aviso quando o spoiler estiver próximo e preparem-se para um texto um tanto quanto longo. 😉

“A marca humana” começa nos contando sobre Coleman Silk. Professor de uma Universidade na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, ele é conhecido como o decano responsável por recuperar o fôlego da universidade com professores jovens e novos métodos de ensino além de regras mais específicas para promoções e outras iniciativas que reformularam a estrutura rançosa da Instituição. Por anos, ele coordenou como um maestro a revitalização da Universidade, mas inesperadamente, aos 70 anos e próximo da aposentadoria, ele é forçado a pedir demissão. O estopim foi uma acusação de racismo: comentando sobre alguns alunos que nunca apareciam em suas salas, ele usa a palavra spook – que, décadas atrás, tinha um sentido depreciativo para negros. Acontece que ambos os alunos que nunca aparecem são negros.

Apesar de nunca ter visto os alunos, portanto sem ser possível saber se eram negros ou não, Coleman é obrigado a se despedir de sua carreira de maneira sórdida. Revoltado, ele passa dois anos chafurdando nessa situação: encontra um advogado, tenta escrever um livro que conta seu lado da história (ao qual, desastrosamente, quer dar o título de Spooks) e se aliena das pessoas que conhecia na Universidade convencido de que todos o traíram. Quando sua esposa morre, ele culpa aqueles que o expulsaram da Universidade.

Ele faz um amigo durante esse período – se é que amigo é a palavra certa: que é quem nos narra a história – Nathan Zuckerman (que aparece em outros livros de Roth) – que nos conta tudo que descobriu depois de certos acontecimentos. Zuckerman é escritor e está morando na região pois procura um lugar calmo onde possa escrever sua próxima obra. Coleman exige que ele o ajude a escrever seu livro-defesa e Zuckerman se transforma em um ouvinte atento às histórias do ex-professor.

Os anos passam e a situação se acalma. Coleman parece ter superado o ocorrido e tenta seguir com sua vida (ou o que resta dela). Zuckerman nos conta como, a partir do momento em que o caso se torna passado, o ex-decano vira outra pessoa. Mais leve, cheio de energia e mesmo aos 70 anos capaz de começar um namorico com uma das faxineiras da Universidade de apenas 35 anos.

Dessa vez, porém, Coleman será acusado de assédio sexual pois a faxineira é analfabeta, pobre e muito mais nova que ele. As coisas pioram, e muito, quando entra em cena o ex-marido da moça: ex-combatente do Vietnã, ele enfrenta um estresse pós-traumático intenso com direito a acessos de raiva e pensamentos homicidas. Ele odeia a ex-esposa porque acha que ela é responsável pela morte de seus filhos. Ele a persegue e a ameaça.

Para quem não quer ler spoilers, posso dizer que o livro a partir daqui tem inúmeras surpresas. Roth mostra que a verdade – aquela verdade factual – muitas vezes fica soterrada sob não apenas o politicamente correto, mas também sob as interpretações individuais que, normalmente, são enviesadas por um contexto próprio. A verdade é de cada um. O problema é quando interpretamos a verdade do outro sob nossa lente causando uma série de situações complicadas e, por vezes, drásticas.

Roth constrói sua história com calma, tornando a experiência de leitura quase uma montanha russa. Temos momentos tranquilos, cenas simples e, do nada, ele libera uma informação que muda quase que tudo o que o leitor achava que sabia. Ele coloca um espelho e força o leitor a se olhar e reconhecer seus próprios pré-conceitos sobre determinados assuntos. É desconcertante e incrível ao mesmo tempo.

**Spoilers em frente**

A grande revelação do livro, porém, aquela que exige alguns minutos para o leitor recuperar o fôlego é que….Coleman é negro. Negro de uma pele muito clara, podendo se passar por branco em alguns momentos, mas negro. Essa é uma revelação que não aparece solta. A partir dela, entramos em uma parte do livro em que vamos conhecer a grande hipocrisia da sociedade americana pelos olhos do jovem Coleman Silk.

Quando jovem, Coleman decidiu que sua vida não seria pautada pela cor de sua pele. Acontece que, para muitas pessoas, isso não é uma opção. A cor da pele está ali para quem quiser ver. Na década de 50, a questão era ainda mais crucial. Negros tinham quase nenhum direito e depois de ver seu pai ser humilhado constantemente em seu emprego de garçom, a decisão de deixar tudo isso para trás pareceu a mais correta.

Ele se inscreve na Marinha como branco. A partir daqui, ele começa uma vida totalmente alternativa. Ele experimenta o que é ter direitos, não ser considerado menos humano logo de cara e vê uma oportunidade de ter a vida que sempre quis, porém, ao custo de abandonar tudo o que conhecia. E assim ele faz. Quando conhece sua futura esposa, ele diz que seus pais estão mortos e por toda sua vida de casado, ninguém imagina o segredo que ele carrega. Seus filhos nascem brancos e ele parece ter escapado do karma. Ou quase. É com ironia, portanto, que vemos que nem mesmo para se salvar de uma acusação de racismo, Coleman entregou seu segredo. A importância de ser visto como branco era tão grande e tão intrínseca, que nem mesmo para manter um emprego do qual gostava muito, ele contou a verdade.

Roth escancara o problema do racismo de duas maneiras muito inteligentes: primeiro, o politicamente correto que queimou um professor realmente bom quando estava claro que não havia intenção de ofensa (pois ele nunca tinha visto os alunos). Segundo, a importância da cor em dado momento era tão crucial para as oportunidades que se poderia conseguir, que instigou Coleman a viver uma vida de mentiras, sem nunca assumir quem realmente era. Sua nova cor de pele lhe deu tudo o que ele desejou mas, ao final, também foi sua desgraça.

Enquanto Roth pode levar o leitor a odiar Coleman, ele também dá plenos motivos para que se compreenda seus motivos – lembrando que a lente de Coleman não é a mesma que a do leitor, necessariamente. Quando menino, ele sofreu preconceito e ouviu todas aquelas histórias humilhantes do pai. É importante entender que nenhuma escolha vem fácil e as consequências sempre aparecem – mais cedo ou mais tarde. Os julgamentos alheios, porém, são feitos sem essa contextualização.

“A marca humana” mostra que podemos correr, mas dificilmente é possível fugir da construção social dentro da qual estamos inseridos. Você pode se passar por branco e aí ser acusado de racismo. Você pode ser uma mulher se passando por homem e aí ser acusado de misoginia. No fundo, ao que me parece, Roth mostra que nossos preconceitos e nossa inaptidão para a convivência com “o outro” é enorme. Sempre há motivos (e se não existiam antes, eles serão criados) para questionarmos – e execrarmos – quem não se habilita a viver dentro da identidade social padrão. Somos reféns do contexto do todo e o individual acaba por ser obrigado a sentar no banco de passageiro e esperar sua vez, que pode nunca chegar.

A maior indicação disso são as pequenas incursões no texto sobre o caso Clinton-Lewinsky (o livro se passa em 1998, ano em que o escândalo saiu na mídia). Monica perde a identidade para o escândalo porque se não considerarmos que ali existe uma pessoa com um contexto próprio, nossa opinião generalizada é muito mais palatável. A própria Monica, aliás, falou sobre isso em sua ótima palestra no TED.

Tem, também, uma crítica sobre como o governo americano não consegue assimilar – é um debate ainda em andamento – os ex-combatentes que voltam para casa com um trauma difícil de lidar – e talvez custoso. Esses homens que colocam sua vida em suspenso para lutar por um ideal que muitas vezes nem é o próprio – voltam para casa apenas para serem rejeitados pela sociedade que, mais uma vez, não consegue visualizar o contexto do outro. Tal como os negros no período pós-escravidão, precisam se tornar senhores de suas vidas dentro de um sistema que já os descartou e vai tentar sufocá-los como se não existissem.

Terminei o livro e precisei de um bom tempo para digerir tudo o que estava ali. Cada vez pensava em algo diferente, uma nova camada de interpretação possível, um novo contexto que eu deveria levar em conta para entender tudo o que vi durante a leitura. E apesar do texto gigante, ainda não acredito que uma resenha seja digna da experiência de ler esse livro.

A única conclusão clara a que chego é que não me resta alternativa a não ser engrossar o coro: Philip Roth GÊNIO!

**

“Você não está mais enfrentando um bando de elitistas que posam de democratas e escondem a ambição por trás de ideais grandiloquentes. Agora você está brigando num mundo em que as pessoas não se dão ao trabalho de disfarçar a crueldade por trás de uma retórica humanitária. A atitude básica dessas pessoas em relação à vida é que desde o começo elas são vítimas de uma sociedade injusta. O que você sofreu com a sacanagem que lhe fizeram na faculdade, por mais terrível que tenha sido, é o que essas pessoas sentem a cada minuto, de cada hora…” [pág. 94]

“E como se nem sequer o nível mais básico de pensamento imaginativo tivesse causado o menor distúrbio na consciência. Um século de destruições sem precedente que afligem toda a espécie humana – dezenas de milhões de pessoas comuns condenadas a passar pelas maiores provações, atrocidades, barbaridades, mais de metade do mundo submetida a uma política social que se resume ao sadismo patológico, sociedades inteiras se organizando e se aprisionando pelo medo de sofrer uma perseguição violenta, a degradação da vida individual imposta numa escala industrial inaudita, nações inteiras dominadas e escravizadas por criminosos ideológicos que as despojam de tudo, populações inteiras de tal modo acovardadas que já não conseguem sair da cama de manhã com a menor vontade de enfrentar o dia….e, apesar de todas as marcas terríveis deste século, está todo mundo em pé de guerra por causa de Faunia Farley. Aqui nos Estados Unidos, quando não é Faunia Farley, é Monica Lewinsky!” [pág. 174]

“‘A marca humana’, disse ela, sem repulsa nem desprezo nem condenação. Nem mesmo tristeza. É assim que é – à sua maneira seca, era o que Faunia estava dizendo à moça que dava de comer à cobra: nós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma – não tem como não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que está lá antes do seu sinal. Mesmo sem nenhum sinal ela está lá. A marca é tão intrínseca que não precisa de sinal. A marca que precede a desobediência, que abrange a desobediência e confunde qualquer explicação e qualquer entendimento. Por isso que toda essa purificação é uma piada. É uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura. Porque essa busca por purificação não passa de mais impureza. Tudo o que Faunia estava dizendo sobre a marca era que ela é inevitável.” [pág. 271]

“Embora o mundo esteja cheio de pessoas que andam por aí achando que sabem perfeitamente tudo à respeito de nós, o fato é que nunca se chega ao fundo daquilo que se desconhece. A verdade a nosso respeito é infinita. Tal como as mentiras.” [pág. 352]

“[…] Mas o perigo do ódio é que, depois que começa, você acaba chegando a uma coisa cem vezes maior do que você queria. Depois que você começa, não tem como parar. Não conheço nada mais difícil de parar que o ódio. É mais fácil parar de beber que dominar o ódio. O que não é pouca coisa, não.” [pág. 365]

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