Resenha – A montanha mágica
por Patricia
em 08/05/17

Nota:

 

Publicado em 1924, A montanha mágica é daqueles livros que estão em todas – ou quase todas – as listas de melhores livros de todos os tempos. De fato, mais de um livro do, meio alemão, meio brasileiro, Thomas Mann deve estar nessas listas. Em seu livro Diários, a autora Susan Sontag refere-se à esta obra de Mann como “um livro para toda a vida”. “É o melhor romance que já li. A doçura renovada e incessante familiaridade com essa obra e o prazer sereno e meditativo que sinto são incomparáveis.”

Mann levou o Nobel de Literatura em 1929 e já há algum tempo seus livros não eram publicados no Brasil. Essa lacuna começou a ser fechada em 2015 quando a Companhia das Letras passou a relançar obras do autor em capa dura e belíssimas edições. A Montanha Mágica, talvez um dos títulos mais aguardados, foi lançado no final de 2016.

Como esse será um texto longo (não tanto quanto o livro), será dividido em temas gerais para facilitar a leitura.

A origem

A Montanha mágica é um tomo de mais de 800 páginas. Presume-se que Mann começou a escrevê-lo em 1912, mas foi interrompido pela Primeira Guerra Mundial que pode ter influenciado o autor a expandir seu texto original.

A história começa quando Hans Castorp chega em um sanatório no alto de uma montanha para visitar seu primo Joachim. Sanatório é uma clínica médica privada cujo tratamento é a base de descanso, normalmente focada em doenças respiratórias. Importante não confundir com manicômios ou lugares similares.

Hans é órfão de pai e mãe e é descrito pelo autor como alguém que “gostava de viver bem, e, apesar da sua aparência anêmica e refinada, agarrava-se com fervor e firmeza, qual um lactente deliciado pelos seios da mãe, aos prazeres físicos que a vida lhe oferecia”. Em outro momento, Mann esclarece que Hans era um jovem de 24 anos, alheio aos problemas da vida e um pouco devagar para entender o seu ambiente – um típico menino sem nenhuma idéia própria ou original.

A descrição do dia a dia no sanatório é tão monótona quanto esses dias deveriam ser. Os pacientes têm uma rotina bem estabelecida e suas vidas são regradas pelos horários das refeições, descansos e passeios. Hans inicialmente pretende ficar no sanatório por 3 semanas. Porém, depois de 2 semanas, os médicos descobrem uma mancha em seu pulmão e pedem que considere ficar algum tempo sob observação. Vão-se aí 200 páginas para cobrir essas primeiras duas semanas de reconhecimento de território.

Personalidades e idéias

Alguns personagens marcam Hans de maneira muito mais importante que outros. A primeira figura que começa a moldar o sanatório em uma escola para Hans é o italiano Settembrini. Ele fala sobre democracia, direitos humanos, liberdade individual, a busca pelo conhecimento, pela arte e a importância da literatura para a humanidade. Um personagem pós-guerra recheado de simbolismo. Em algumas interações, quando Settembrini encontra com Hans ele acende alguma luz para falar, tirando-o da escuridão – figurativa e literalmente falando. O italiano é o primeiro passo na iluminação do jovem Hans como cidadão do mundo.

– Aí está, meus senhores! – exclamou Settembrini. – Aí está! – E passou a falar da “palavra”, do culto da palavra, da eloquência, que qualificou a humanidade. Pois o verbo era a honra dos homens, e só ele tornava a vida digna de seres humanos. Não somente o humanismo, mas também a humanidade em geral, toda a dignidade humana, todo o respeito pelos homens e toda a estima que eles sentiam de si próprios eram inseparáveis do verbo, e por conseguinte, da literatura… (pág. 185)

Quando Settembrini se muda do sanatório para uma casa em um vilarejo próximo, Hans e Joachim conhecerão Naphta – um senhor muito aprumado que mora na mesma casa que o italiano e com quem tem discussões ferrenhas sobre as escolas ideológicas que seguem. A genialidade de Mann aqui é que em nenhum momento ele descreve as idéias de cada um, ele as apresenta quando os personagens discutem entre si – defendendo suas teorias. E enquanto o humanismo de Setembrini falou por muitas páginas sozinho, Naphta apresenta um contraponto na segunda parte da história. Adepto do radicalismo, ele enxerga o mundo de maneira extrema, o famoso “preto e branco”, defendendo, por exemplo, a Inquisição e os aspectos mais severos do catolicismo.

– Sobre a dignidade e a ausência dela – disse Naphta – bem se poderia discutir. Por ora eu ficaria muito satisfeito se o contexto de nossos debates lhe permitisse ver na liberdade menos um belo gesto que um problema. O senhor observa que a moral econômica cristã, com toda sua beleza e humanidade, cria servos. Eu oponho a isso que a questão de liberdade, ou a questão das cidades, como se poderia dizer de uma forma mais concreta, que essa questão, por elevada e ética que seja, acha-se historicamente ligada à mais desumana degeneração da moral econômica, a todas as atrocidades das corporações modernas de comerciantes e especuladores, com o domínio satânico exercido pelo dinheiro, pelos negócios. (pág. 466)

Quase ao final da obra, faltando menos de 300 páginas para a conclusão, somos apresentados a Peeperkorn – um holandês, plantador de café e visitante do sanatório para uma temporada. Um típico ocidental, Peeperkorn é pouco intelectual, vive a vida boa de um rico que se impõe sobre os demais com uma personalidade magnética e inconveniente e mesmo sem conseguir proferir sentenças completas em alemão, se faz entender pura e simplesmente pelo seu “estilo”. Ao lado de Settembrini e Naphta é um ignorante que não se impõe pelas idéias, mas pela força e impressão que causa com seu tamanho e envergadura. O que ocorre com Peeperkorn é metaforicamente explicado como o destino de todas as nações que se comportam de forma similar.

Falo do vinho, um presente divino feito aos homens, segundo já afirmavam os povos humanísticos da Antiguidade, a invenção filantrópica de um deus, relacionada com a própria civilização. […] Ainda hoje, os povos em cujos países há parreiras são considerados mais civilizados, ou pelo menos julgam-se assim, do que aqueles que não têm vinho, os cimérios; isso é realmente notável. Pois significa que a civilização, em vez de ser um assunto o intelecto e da sobriedade ponderada, depende do entusiasmo, da ebriedade e da sensação do deleite. (pág. 655)

A importância de se ter um espaço no livro para discutir essas idéias, me parece diretamente ligada ao fato de o ambiente na montanha ser de ignorância feliz. Os residentes do sanatório mal pensavam em qualquer coisa que não fosse em seus próprios diagnósticos e até se dividiam em grupos baseados em suas doenças. À medida em que é exposto a coisas que nunca o haviam interessado antes, Hans também passa a pesquisar assuntos por conta própria: anatomia, biologia e, até mesmo, botânica, indo de um jovem simples para um dos mais curiosos e interessados do lugar.

Ao final, não conseguir escapar da guerra que estoura na planície nos apresenta um Hans mais maduro, pronto para tomar decisões próprias e decidir seu próprio caminho.

Temas gerais

Diversas vezes no começo da obra, Mann se refere aos homens como o “sexo forte” – algo um tanto sarcástico em um ambiente em que todos sofrem de alguma enfermidade com níveis diferentes de debilidade. O tema de sexualidade é abordado de maneira bem à frente do tempo: há leves indícios de uma paixonite platônica e homossexual de Hans na juventude (ou talvez uma curiosidade). Em outro momento, durante um almoço, Hans acusa uma das comensais de ter se apaixonado pela Madame Chauchat, uma belíssima e enigmática russa, e a Sra. recebe a acusação com um “pode ser que sim”. Aliás, o que chama a atenção de Hans na Madame Chauchat, por quem se apaixona, é que ela se pareça tanto com o menino por quem ele teve certa fascinação quando jovem a ponto de achar que poderiam ser irmãos.

O crescimento de Hans terá momentos mais doces, como esse amor pela Madame Chauchat, e terá momentos basilares na formação de um cidadão político que hoje foi escamoteado pelo Facebook: entender as teorias vigentes e formar uma opinião própria com conhecimento adquirido. Hans, de fato, é um modelo para um mundo pós guerra que precisa ser afligido pela doença (ou guerra) para reconhecer sua própria indiferença às idéias que existem ao seu redor e entender que sem se escutar o que está sendo dito, nunca se chega a lugar algum. Uma mensagem ao mundo que viu ruir durante a guerra.

Um outro fator crucial na obra é o tempo. O efeito que ele tem em cada um de nós mesmo quando parece suspenso da realidade – no sanatório, à medida que os dias se repetiam, era fácil esquecer há quanto tempo se estava ali. As estações não respeitavam os preceitos básicos do clima e pareciam surgir quando queriam, mexendo ainda mais com a consciência de tempo do lugar. E é por isso que a condução da história por personagens fortes é tão importante: eles são, em sua forma, a maneira de rastrear algum resquício de tempo e organização dos dias. Quando um entra e outro sai, pode-se pensar no tempo passado. Quando um debate ocorre diversas vezes, o tempo fica marcado por essas conversas que mostram que algumas idéias se mantém muito além de um período determinado. Até porque, a melhor maneira mesmo de medir o tempo é mais através de experiências e coisas interessantes na vida do que com horários e calendários. A monotonia que vemos no começo – quando chegamos ao sanatório junto com Hans – desaparece quando os dias se enchem de conversas interessantes.

Da leitura

Em um livro de 800 páginas temos, obviamente, trechos que podem parecer longos demais e que agregam alguma coisa à história, mas que não parecem essenciais. Há um considerável, e inesperado, humor no livro: Mann parece rir de personagens considerados tradicionais como o Dr. Behrens que dizia que “sabia todas as línguas que existem no mundo” ou do Cônsul Tienappel (tio de Hans) que fica assombrado ao descobrir que uma das senhoras do sanatório tinha seios (ora, vejam só).

Foram 3 meses lendo aos poucos, internalizando e interpretando trechos que me pareciam às vezes cheios de significado e que exigiam mais atenção. Não é incomum ter que reler alguns trechos anteriores para entender o que se diz mais à frente – e o próprio Mann diz que o leitor se beneficiaria de uma segunda leitura da obra. O autor não abre nenhuma concessão à atenção do leitor: A montanha mágica exigirá do leitor o mesmo trabalho e empenho que exigiu de seu criador (esperamos que menos tempo, no entanto).

O livro nos cobra, mas também entrega uma história fantástica, cheia de momentos marcantes com personagens vivos que agregam ao enredo muito mais do que diálogos insossos que visam apenas contar a história do personagem principal – ao contrário, contribuem para engrandecer a história de Hans e, consequentemente, da obra que temos em mãos.

***

O livro foi enviado pela editora. 

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4 Comentários em “Resenha – A montanha mágica”


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Alessandra Costa em 08.05.2017 às 21:49 Responder

Nossa, que resenha maravilhosa! Eu tinha que comentar, parabenizar. Está sensacional!!! parabéns mesmo! adorei!

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Patricia em 09.05.2017 às 12:34 Responder

Ebaa!!!! Obrigada pela visita, pelo comentário e pelo fôlego para ler tudo. hahahaha 😀

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fernanda em 15.04.2018 às 04:23 Responder

Gostei da resenha….pedi a indicação de um livro impactante….que me fizesse mudar minha concepção de vida…queria ser surpreendida, acredito rsrs. Ao ver que o livro possui cerca de 800 paginas, de inicio, imaginei ser meio cansativo….o que você me diz? Ainda nao comecei a leitura…me preparando;…rsrs

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Patricia em 15.04.2018 às 12:12 Responder

Normalmente, o que faço com livros gigantes é ler de 100 em 100 páginas. Aos poucos. A montanha mágica tem mesmo momentos cansativos, mas com essa mentalidade de ler 100 páginas depois mais 100 meio que fui devagar. Levei 3 meses para ler tudo, mas deu tempo de aproveitar as passagens mais significativas. 🙂 Depois conta o que achou do livro.


 

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