Resenha – A mulher calada
por Patricia
em 06/01/14

Nota:

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Muito se fala sobre a misteriosa vida e morte da autora Sylvia Plath – aos 30 anos ela se suicidou no que pareceu um caso de depressão intensa. Quando morreu, ela estava em processo de se separar de seu então marido, o autor Ted Hughes. O casamento gerou dois filhos e um caso sórdido de traição por parte de Ted. Nesse livro, Janet Malcolm tenta entender porque esse caso despertou tanto interesse no público.

É verdade que pessoas famosas depois de mortas parecem desenvolver quase que uma orla de santidade. Pela cultura cristã encrustada em nossas cabeças, não se pode falar mal dos mortos (não que isso impeça alguém, mas…). O que os parentes de Sylvia parecem ter tentando por muitos anos é mostrar uma outra face da autora afirmando que ela era complicada e rude e que a culpa pelos problemas do relacionamento não poderia ser, portanto, totalmente do marido. Sylvia não seria uma vítima (a mulher traída), mas parte do problema (a mulher difícil).

Mas a questão central não é “o que aconteceu de verdade” e sim, “será que o público tem mesmo direito a tanta informação sobre a vida pessoal de alguém?”, e ainda, “será que um biógrafo consegue mesmo ser imparcial quando conta qualquer história?”. Malcom quer levantar um debate sobre os limites da biografia: se existem, como as fontes são escolhidas, o que é considerado ficção e fato e mais, quando se trata de um biografado morto que não pode ser entrevistado, tudo vira interpretação ou há alguma verdade nas informações que se encontra (e como essa verdade seria encontrada)? O caso de Plath e a família Hughes foi uma excelente escolha para apresentar alguns pontos interessantes sobre esse debate porque ele cai justamente naquele ponto da biografia que é o extremo: uma tragédia familiar, uma personagem central jovem que não deixou muito parâmetro de comportamento para avaliação, familiares acuados além de controladores e fãs revoltados e apaixonados.

Enquanto eu lia a pesquisa de Janet Malcolm e suas entrevistas fiquei com duas impressões:

1) Todo mundo quis tirar um pedaço de Sylvia Plath. A família que tanto discutiu com a mídia e tentou bloquear partes de cartas e diários  também liberou documentos impensáveis. A mãe de Sylvia, numa tentativa de mostrar que a relação entre as duas era totalmente amorosa e que a culpa pela depressão da filha não era sua, lançou um livro com as cartas que a filha lhe enviou em momentos extremamente pessoais e, portanto, vulneráveis. Além de abrir para o mundo a privacidade de Sylvia, as cartas parecem ter mostrado exatamente o contrário do que a mãe queria. Nota-se que o espólio de Sylvia tinha um interesse muito específico: proteger não a obra ou a vida da autora mas daqueles ao redor dela. Os que ainda estavam vivos. No entanto, é difícil culpá-los. Enquanto Sylvia estava blindada do escrutínio pela morte, seus familiares ainda tinham que viver constantemente com perguntas que talvez não quisessem responder. E tinham direito de não respondê-las.

2) Assim que Sylvia morreu, a linha entre fato e ficção (e junto com ela a do que seria público e privado) começou a ficar estranha. Muitas versões dos mesmos fatos apareceram e tornou-se difícil descobrir a verdade. Sylvia sofria, sim, de depressão. Anos antes de conhecer Ted ela já havia tentado se matar. Esses são fatos sabidos. Mas o que aconteceu nos 6 anos de casamento parece estar envolto em uma névoa. Tudo o que sabemos não passa da impressão de quem estava do lado de fora e elas podem estar totalmente equivocadas. Ou seja, depois de quase 50 anos da morte da autora, ainda não é possível saber com certeza absoluta se algo específico a levou ao suicídio.

Honestamente, é por isso que acredito que o debate sobre biografias que anda rolando por aqui em terra tupiniquins não faz muito sentido. Papel aceita tudo, assim como sites da internet. Você não precisa nem pesquisar muito para encontrar ‘notícias’ desmentidas em menos de 24 horas. Se o caso de Sylvia Plath prova alguma coisa é que raramente temos como saber se o que estamos lendo é 100% verdadeiro e qual o nível de imparcialidade do autor. Claro, um bom biógrafo vai mostrar suas fontes e deixar claro de onde saiu a informação. Mas isso pode funcionar tanto para revelar coisas sórdidas quanto para exaltar uma figura pública porque, no fim, tudo é revisado e editado. Além disso, como a própria autora aponta, todo autor acaba tomando partido de alguma maneira. Uma das 5 biografias lançadas sobre Plath, por exemplo, foi escrita com a ajuda – e  mão de ferro – da irmã de Ted Hughes que aprovava e alterava o que queria (Malcolm usa a palavra refém para esse caso específico). Eu seu próprio livro, Malcolm guia o leitor pelas suas pesquisas, descobertas, interpretações e vai nos deixando à vontade para pensarmos por conta própria.

Meu pai outro dia estava me contando sobre a autobiografia que leu de uma pessoa que ele conhece e com quem conviveu por um bom tempo. Demos muita risada enquanto ele contava como o autor mudou situações e conta como histórias próprias casos que foram contados a ele (algumas, inclusive, que meu pai testemunhou e sabia não serem verdadeiras). Então, quer dizer, até mesmo uma autobiografia pode ser apenas parcialmente verdadeira. O mercado gosta de sabor e nem sempre a verdade tem gosto. A questão é: o que muda para o leitor?

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