Resenha – A palavra que resta
por Juliana Costa Cunha
em 31/05/21

Nota:

Stênio Gardel participou do Ateliê de Narrativas da autora Socorro Acioli que já passou aqui no Poderoso com seu incrível A Cabeça do Santo. Neste Ateliê Stênio conseguiu dar forma a imagens que lhe vinham à cabeça, em função do seu trabalho. A principal imagem era: um homem sentado à mesa com um papel à mão. Mas esse homem não sabia ler nem escrever. É essa a imagem que se transformou na carta que Cícero escreveu a Raimundo Gaudêncio, quando o romance dos dois foi brutalmente encerrado pelos pais de ambos. E é esta carta que amarra toda a história de A palavra que resta. Raimundo passa a vida inteira com essa carta sem a abrir. Até que decide aprender a ler e escrever já aos 71 anos. Entre o tempo que Raimundo recebe a carta de Cícero e aquele em que começa a aprender a ler para poder ler a carta que ele não deixa ninguém ler, muita coisa acontece.

Antes mesmo de Cícero mandar a carta a Raimundo, os dois se descobrem apaixonados. São amigos de infância e sempre estiveram juntos. Na adolescência Raimundo vai percebendo que as mulheres não lhe atraem e vai deixando Cícero perceber isso, até que os dois se deixam levar pela paixão e vivem seus momentos mais lindos. São momentos de emoção e medo. De encontros escondidos na beira do rio e em baixo do cajueiro. Mas que ninguém poderia ver. Dos dois, Cícero é aquele que apresenta mais receio em como será a vida deles. Dois homens, da roça, famílias onde o pai manda em tudo, vindo da pobreza. Como é que as pessoas vão reagir? Cogitam sair da cidade e ir morar em outro lugar. Mas como serem dois homens sem mulher morando na mesma casa? Enquanto isso, se deixam levar pelo amor até serem descoberto pelo pai de Raimundo. E é aí que a carta vai aparecer.

Eu acho que todo mundo que puder ler este livro deveria fazê-lo. Por que o que Stênio faz nesse livro é primoroso. A partir do momento que Raimundo e Cícero são descobertos a vida de Raimundo passa por todos os tormentos imagináveis. A vida de Cícero não sabemos como fica. Mas imaginamos. Entramos numa narrativa de tanta LGBTfobia do percurso que Raimundo faz quando é descoberto e expulso de casa, que que seriam umas duas páginas de resenha pra elencar cada uma.

Tenho visto muita gente lendo o livro e dizendo que ele é lindo. E aí eu faço umas ressalvas. Por que pra mim, o que tem de lindo nesse livro é a forma como o autor narra a história de Raimundo Gaudêncio. Vai misturando passado e presente com uma escrita tão marcada pela oralidade, que é como se você estivesse ali com aquelas personagens ouvindo tudo. E, como Raimundo não sabe ler nem escrever, isso é por demais de lindo. É muito lindo!!! Tem trechos belíssimos, de pura poesia.

Porém, para mim, a beleza do livro fica demarcada aí. A história, primorosamente narrada, não é linda não. É triste. Muito muito triste. De uma tristeza que só quem é Lésbica, Gay, Bissexual, Travesti ou Transsexual, ou Queer, ou +, sente. Por que vai fundo e escancara preconceitos absurdos. Eu, sendo o B das letrinhas senti muito forte. Passei a leitura com nó na garganta e coração em angústia. Pois, são muitas as violências vividas e também reproduzidas por Raimundo. O encontro dele com Zuzzanný é dos mais tristes e lindos que já li na literatura.

Eu terminei esse livro aos prantos. E conversei com outras tantas pessoas que leram e são LGBTQ+ e a sensação é a mesma. O choro é o mesmo. Um, inclusive, me disse que não estava conseguindo ler em sequência, tinha que fazer pausas…. Que bom que esse livro tá sendo lido por tanta gente. E eu tomara que seja lido por muito mais pessoas. E que todas as pessoas que o leem consigam ser tocadas por tudo o que Stênio fala. Grita. Escancara. E humaniza pessoas que vivem à margem de uma sociedade que as põem à margem e que levam, às vezes, uma vida para vir a ser quem de fato é.

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Livro enviado pela editora.

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