Resenha – A pediatra
por Juliana Costa Cunha
em 19/11/21

Nota:

Não raro nos deparamos com histórias da vida real onde a pessoa exerce uma profissão específica porque as circunstâncias a levaram a isso. Não há a tal vocação. Ou o amor à atividade que irá desenvolver. Apenas uma conjunção de fatores que facilitam a vida e, assim, a pessoa segue. Cecília é uma personagem fictícia (será?), protagonista do novo lançamento de Andrea Del Fuego – A Pediatra. Sim, Cecília é pediatra porque seu pai é médico endocrinologista, já bastante estabelecido e que possibilita à nossa personagem a estabilidade que ela almejava.

Cecília é dessas personagens politicamente incorretas que, na minha opinião, tá fazendo falta na nossa literatura. Ela é pediatra, mas não gosta de crianças e nem deseja ter filhos. Salvo quando tem contato com o filho de seu amante e aí as coisas mudam um pouco de figura. Sua conduta é básica com as crianças, não cria vínculos com as mães e, em casos mais graves, simplesmente encaminha para especialistas. É a neonatologista de referência para uma obstetra em uma maternidade de referência, até a chegada de outro profissional que preconiza o parto humanizado e a participação de doulas neles.

O enredo do livro se passa na vida profissional de Cecília e na vida pessoal. A personagem separa-se logo nos primeiro capítulos e passa a ter um amante que é casado. Tem nos quartinhos do fundo uma empregada, Deise, a quem assegura todos os direitos e tem uma relação dúbia. E uma relação protocolar com seus pais. Não há grandes reviravoltas até a última página do livro. Mas o grande barato das 160 páginas do livro é acompanhar o fluxo de pensamento de Cecília. Tudo aquilo que ela pensa, mas não fala (mesmo quando ela faz).

Há, na narrativa de Andrea, um tom corrosivo e mordaz. Desses que fazem a gente rir de nervoso, sabe? Cecília trata Deise como sua empregada, regula o limite dos direitos dela e, ao mesmo tempo, a chama para tomar uma cerveja. Se infiltra numa escola (Mãe Prana) para mães que desejam ter filhos de parto natural para desmascarar a doula e o médico que podem lhe tirar a referência no hospital em que trabalha, destilando uma série de pensamentos nada elogiosos a esta conduta médica. Descobre onde o amante mora com a esposa e o filho e passa a se aproximar do menino. Única pessoa que abala suas estruturas. Tudo isso regado a muitos pensamentos irônicos, mordazes e nada sensíveis.

A Pediatra me fez imaginar Cecília em algumas situações de minha vida e dar boas risadas. Mas também pensar sobre a receptividade de um livro nesses moldes nos tempos atuais onde, obviamente, essas condutas não são mais aceitas (e ainda bem!). Me fez pensar na força da literatura em potencializar as discussões também por esse viés mordaz. E, me parece, personagens mais humanas.

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Livro enviado pela editora

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