Resenha – A pediatra
por Poderoso
em 16/11/21

Nota:

Por Gabriel Pinheiro (@tgpgabriel)

Cecília Tomé Vilela é pediatra. Ela se destaca no mar de médicos pediatras existentes no mercado não por um método inovador de cuidado e tratamento, mas por sua peculiar característica, aparentemente incompatível com o ofício: ela não gosta de crianças. Gosta menos ainda dos pais dos pequenos, suas preocupações e suas crises frente às doenças dos filhos. Cecília é a protagonista de “A pediatra”, novo romance de Andréa del Fuego.

Sabe aqueles personagens que amamos odiar? Cecília é um desses casos. Crio uma curiosa relação de repulsa e atração por essa médica ácida e debochada. Ela não pensa em ter filhos, “criança nem pensar, acabaria com a minha naturalidade, me obrigaria a ser outra pessoa”. Adora um hospital cheio, sua potência de cenário de guerra, onde tudo é súbito e precisa ser assertivo – mas não gosta dos pacientes.

É interessante o trabalho de pesquisa da autora na construção da personagem e dos ambientes por onde ela circula. Há uma série de descrições detalhadas e complexas sobre doenças e procedimentos médicos. Sua personagem não poupa críticas aos métodos, considerados por ela, alternativos: alguns de seus alvos preferidos são as doulas e os partos domiciliares. Um novo pediatra, defensor do parto humanizado, surge como ameaça em seu círculo profissional.

Cecília é pediatra clínica – tem um consultório de sucesso, não faltam pais amedrontados pelos riscos que rondam a vida de seus pequenos. Ela também é pediatra neonatologista, participando de partos – em sua maioria, cesáreas – para acompanhar os recém-nascidos em seus primeiros minutos de vida. Ali confere seus sinais vitais, pinga nitrato de prata nos olhos do bebê e verifica seu Apgar – teste que avalia seu estado geral e vitalidade que vai de 0 a 10.

Narrado em primeira pessoa, o romance é tomado pelas impressões da pediatra sobre si, sobre os colegas de profissão, sobre os pacientes, sobre o mundo ao seu redor. Empatia não é uma palavra presente em seu vocabulário. Mas Andréa del Fuego foge de criar uma personagem plana. Cecília é repleta de nuances. Ao falar de si, a pediatra escorrega em sua suposta superioridade frente ao mundo e nos apresenta uma porção de fragilidades e vulnerabilidades. Ela, por exemplo, cria laços inesperados com sua empregada grávida e com o filho de seu amante. Antes de olhar para a própria mãe, Bruninho viu Cecília ao chegar ao mundo, afinal, foi ela quem o pegou nos braços primeiro para verificar se estava tudo bem com sua saúde ao nascer.

“A pediatra” tem muito ritmo, com sua narrativa ágil e seus capítulos curtos, é difícil de largar. Dá pra ler de um fôlego só a (des)construção de sua protagonista de sabor ora azedo, ora amargo – nunca doce. Há uma tensão crescente no texto de Andréa del Fuego que caminha lado a lado com o comportamento gradualmente obsessivo da pediatra. Se medirmos o Apgar deste novo “filho” da autora, nele sobra vitalidade: de 8 a 10 na escala.

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