Resenha – A queda para o alto
por Gabriel
em 14/12/15

Nota:

A queda para o alto

A queda para o alto é uma obra forte. Cheguei a este livro ao sondar minhas anotações de “leituras pendentes” em busca de mais um livro escrito por mulheres para este final de 2015. Ao ver o nome de Sandra Mara Herzer, busquei pela sinopse e me interessei. Só que logo percebi que a coisa não era tão simples. Se há uma certeza na trajetória de Herzer, parece ser a de que ela havia nascido Sandra Mara, mas se sentia e vivia como Anderson.

A obra traz surpresas logo ao início para um leitor incauto. Ao passar pelas primeiras páginas me deparei com pequena introdução de Eduardo Suplicy (ele mesmo, o político ex-Senador e hoje Secretário de Direitos Humanos da cidade de São Paulo), que conheceu Herzer pessoalmente e o levou para trabalhar em seu gabinete, ainda quando deputado. Suplicy também foi responsável por estabelecer o contato entre Anderson e a editora que acabou publicando seu livro. Isso lhe rende algumas páginas de agradecimentos e elogios por parte do autor.

Este é um livro triste. Pelo seu roteiro, que trata de uma vida real das mais sofridas; e pelo seu autor. Logo de início o leitor é informado de que Herzer se suicidou meses depois da publicação do volume em 1982, aos 19 anos, tendo sido encontrado debaixo de um viaduto em São Paulo. O prefácio de Eduardo Suplicy fala sobre quem foi Herzer para ele e como o dia de seu suicídio se passou. Sem rodeios, direto ao ponto.

O livro tem duas partes. A primeira é uma autobiografia de Anderson Herzer. Nascido no interior do Paraná, em uma família conturbada, foi adotado e viveu em São Paulo, onde foi internado na FEBEM (instituição para menores infratores do governo do Estado, hoje substituída pela Fundação Casa) basicamente por existir. Sua infância de precoces problemas e ambiente completamente insalubre encontrou um amplificador dentro da instituição, conhecida por tratar os internos com violência e descaso. A infraestrutura inexistente e os frequentes episódios de desrespeito são descritos claramente pelo autor, que sofre ainda mais a partir do momento em que se percebe um homem.

Herzer, conhecido na FEBEM como Bigode, desempenha um curioso papel de “pai de família” dentro da instituição e torna-se alvo preferencial dos funcionários devido a sua orientação sexual e sua desenvoltura. A recorrência com que pequenos relatos de violência física e psicológica aparecem no livro é de aturdir. A forma como Anderson escreve sua prosa, sempre semelhante a um boletim de ocorrência policial, deixa tudo ainda mais impactante.

A segunda parte constrói o contraste do livro e o torna ainda melhor. Herzer desde cedo escrevera poesias, sobre assuntos diversos. Neste estilo de escrita o autor fica claramente mais à vontade e suas palavras fluem. Belas sequências são geradas sobre assuntos como a morte ou o amor. Algumas parecem prever o seu fim e descrevem a morte de pessoas desconhecidas, sem que ninguém percebesse. Anderson foi mais uma dessas pessoas que viveu entre nós, teve uma vida triste e sofrida, agravada pela negligência e pelo preconceito da sociedade, e morreu sem que quase ninguém realmente se incomodasse. A queda para o alto serve, portanto, como o panfleto que Anderson imagina em um de seus mais belos poemas:

Eu vou distribuir panfletos, dizendo que João morreu

Talvez alguém se recorde do João que falo eu

Em tempos de furor no país pela condenação de menores, Anderson traz a forte lembrança de que muitos destes menores já são julgados, condenados e executados diariamente sem que ninguém note.

 

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