Resenha – A quinta estação
por Patricia
em 01/02/21

Nota:

A quinta estação é o primeiro volume da trilogia “A terra partida”. A obra chamou a atenção ao vencer o Hugo Award de Melhor livro em 2016, tornando Jemisin a primeira autora negra a receber o prêmio nesta categoria (o prêmio reconhece as melhores obras de ficção científica e fantasia, e foi estabelecido em 1953). Os volumes 2 e 3 da série, venceram, nos anos subsequentes, o mesmo prêmio – feito bem impressionante para uma trilogia.

A história nos leva ao continente Quietude em que a população enfrenta, de tempos em tempos (medido em séculos), o que chamam de “quinta estação” que é uma mudança climática catastrófica. No continente, temos diversas espécies e etnias bem divididas por seus poderes e habilidades. O grupo de humanos mais poderoso é dos orogenes: pessoas capazes de controlar energia e, com isso, causar ou prevenir erupções vulcânicas e terremotos. Eles são treinados e usam anéis para marcar seu ranking (10 anéis denotam o orogene mais poderoso) – o termo está ligado a orogênese, processo de formação de montanhas. Por seus poderes, também são muito temidos e há até um termo considerado ofensivo para se dirigir a eles: roggas.

Há castas também: Liderança, Inovadores, Resistentes e Reprodutores que funcionam exatamente nessas funções. E, para controlar os orogenes, existem os guardiões. E, aos poucos, outros seres são apresentados a nós leitores.

A história acompanha três mulheres: Essun, que chega em casa para descobrir que seu marido assassinou seu filho e sumiu com sua filha (não é spoiler, é literalmente o primeiro capítulo); Damaya, uma jovem obrigada a viver em um celeiro quando seus pais percebem que ela tinha poderes e é recrutada para treinamento pelo guardião Schaffa; e Syenite, uma orogene quatro-anéis ordenada para junto com Alasbater (dez-anéis): 1) ter um filho poderoso e 2) ajudar uma cidade a eliminar o coral, que entope seus portos e atrapalha a economia local.

As coisas não parecem promissoras quando há um enorme terremoto indicando que uma nova quinta estação está para acontecer. Antecipando a extinção, o mundo começa a desmoronar.

***

Há muito o que discutir sobre essa obra. Jemisin consegue tratar de assuntos diversos enquanto nos ensina sobre o sistema mágico que criou: de escravidão ao papel da mulher, passando por sexualidade. A partir daqui a resenha pode conter spoilers.

A forma de controlar os orogenes não é apenas treinando seus poderes, mas fazendo-os acreditar que esses mesmos poderes que podem mudar o mundo são uma maldição e que, por isso, eles são serem inferiores e não superiores como se poderia imaginar. Para se redimirem, precisam fazer o que a liderança manda. Aos guardiões, se reserva o direito de assassinar orogenes quando acharem que representam algum perigo. Qualquer semelhança com a dinâmica de senhores e escravos negros não é coincidência.

– Não somos humanos.

– Nós. Somos. Sim. – A voz dele se torna impetuosa. – Eu não ligo a mínima para o que o conselho não-sei-que-enésimo dos grandes peidorreiros importantes declarou, nem para o modo como os geodesias classificam as coisas, nem para nada disso. A ideia de que não somos humanos é apenas uma mentir que eles contam a si mesmos para não ter que se sentir mal pela forma como nos tratam… (pág. 422)

Além disso, existe uma conversa importante sobre o papel da mulher. Mesmo orogenes poderosas como Syenite, são incumbidas de gerar filhos (filhos de orogenes normalmente herdam os poderes). Elas são enviadas a homens orogenes e o seu trabalho é apenas procriar. As cenas de Syenite e Alabaster tentando uma gravidez são depressivas. A orogene que ajuda Syenite a lidar com isso, tem 6 filhos. Alabaster, tem 12. Não sabem o que acontece com as crianças depois que nascem. As mulheres são tratadas como estufa de reprodução pura.

O conflito interno de Syenite é bem explorado. Abandonada pela família, ela encontrou algo como uma família adotiva no seu guardião e acreditou em tudo o que aprendeu em seu treinamento. Mas à medida em que vê mais do mundo e conversa com Alabaster, ela conhece outros aspectos da História de Quietude, convenientemente deixados de lados em seu aprendizado. A desconstrução de quem ela achava que era para quem deve ser, é ótima de acompanhar.

Sexualidade e identidade são temas presentes também. Isso porque descobrimos que Alabaster, apesar de ter sido forçado a ter 12 filhos, é homossexual. Quando ele e Syenite acabam em uma ilha fugindo de um dos guardiões, eles conhecem um orogene selvagem que é bissexual e vivem como um trisal por um tempo. Tonkee é uma mulher trans (alguém liga para a J.K. Rowling!) com um arco próprio que conecta com o de Essun.

O ritmo de leitura é frenético. Ainda que em alguns momentos, as descrições possam soar levemente confusas, li as 560 páginas em 3 dias. Um ponto incômodo é o uso de termos como “peidorreiros” e variações similares um tanto infantis no mesmo livro em que o verbo “foder” (no sentido sexual mesmo) é usado com considerável liberdade.

Para além disso, Jemisin mostra bem como a sociedade está exposta e à mercê da Terra e que, talvez, mesmo com “seres poderosos” não será possível evitar a (mais uma) extinção.

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