Resenha – A Teia da Vida
por Thiago
em 15/08/14

Nota:

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Quando falamos em ecologia, sustentabilidade e meio ambiente, temas tão atuais e importantes para nosso tempo, há alguns livros que creio ser de grande importância para um entendimento mais aprofundado sobre os mesmos, dentre eles temos o que apresento pra vocês hoje “A Teia da Vida” do físico austríaco Fritjof Capra.

Capra escreveu vários livros como Sabedoria Incomum editado no Brasil pelo Círculo do Livro em 1992, e, Pertencendo ao Universo pela  Editora Cultrix em 1995. Mas, tornou-se mundialmente famoso com seu O Tao da física (Cultrix), traduzido para vários idiomas. Nele, traça um paralelo entre a física moderna  (relatividade, física quântica, física das partículas) e as filosofias e pensamentos orientais  tradicionais, como o taoísmo de Lao Tsé, o Budismo (incluindo o zen) e o Hinduismo. Surgido nos anos  70, O Tao da física busca os pontos comuns entre  as abordagens oriental e ocidental da realidade.  Outro livro seu tornou-se referência para o pensamento sistêmico: O Ponto de Mutação (Cultrix), cujo nome foi extraído de um hexagrama do I Ching. Nele, Capra compara o  pensamento cartesiano, reducionista, modelo para o método científico desenvolvido nos últimos  séculos, e o paradigma emergente do século XX,  holista ou sistêmico (que vê o todo como indissociável, de modo que o estudo das partes não permite conhecer o funcionamento do organismo), em vários campos da cultura ocidental atual, como a medicina, a Biologia, a Psicologia e a Economia.

A Teia da Vida, livro de 1996, apresenta novas e estimulantes perspectivas sobre a natureza da vida e abre caminho para a autêntica interdisciplinaridade. As descobertas citadas por Capra confrontam os paradigmas mecanicistas e darwinistas aceitos e proporcionam uma nova base para políticas ecológicas que nos permitam pensar em construir e sustentar comunidades sem colocar em risco as oportunidades para futuras gerações.

Assim sendo, segue uma reflexão sobre a obra e a ideia de teia da vida desenvolvida por Capra:

Thomas Jefferson, 3º Presidente dos Estados Unidos e redator da Declaração de Independência daquela nação expressa na epígrafe, a questão que permeia a reflexão proposta neste texto.

Os ditos novos tempos, há muito chegaram. Com ele, impensadas mudanças. Por certo, não conseguimos acompanhá-las. Afinal, como nos mostra Heráclito, o homem não pode entrar num rio mais de uma vez, não apenas porque tal rio já não é o mesmo, mas porque ele, o homem, também mudou. Hoje, essas mudanças parecem ocorrer em uma velocidade mais acelerada. Parece que foi há pouco que clonamos pela primeira vez um mamífero, a ovelha Dolly ocorreu em 1996.

Contudo, normalmente não notamos o tempo em que estamos inseridos, e assim, continuamos trajando nossas vestimentas pueris. De tal forma, pensamos que tudo permanece, que não há mudança. Estamos tão atarefados com a correria diária que nem paramos para observar os fenômenos que nos cercam, ou então se os enxergamos, estamos muito assustados com o que se mostra diferente do habitual, que preferimos não pensar neles, fingimos que não ocorrem.

Com um olhar ingênuo ou não, podemos perceber, que a ciência avança para caminhos que antes eram apenas tema de cinema, de filmes de ficção científica. Assim, com o passar do tempo, o homem chega mais perto da descrição de Francis Bacon (1561-1626) sobre a dominação da natureza, e por vezes, realmente procurado subjugá-la, para que esta siga a vontade humana e não o curso que seguiria sem tal intervenção.

A natureza, em um exercício catártico se revira e se refaz, lutando para manter seu curso. Encontramos vulcões acordando de uma longa hibernação, geleiras derretendo, placas tectônicas dançando e esparramando água para todo lado. Enquanto isso, nósémarcamos nossas vidas olhando para aquele velho relógio de pêndulo que dá um número de badaladas conforme o número de horas do dia que passa. Aquele que tanto fascinou Descartes, em uma visão mecanicista do mundo. Tal máquina, que ditava nossos afazeres diários, a hora do trabalho, a hora de comer, a hora de dormir, a hora de levantar e até quanto tempo nos restaria para diversão, está antiquado, mesmo que ainda realize sua função. Mas sua função não revela o tempo presente.

Nós, insistindo em usar nossas roupas da infância, negamos abrir os olhos para as mudanças que os anos trazem, negamos o fato de estarmos dentro do rio de Heráclito e que nem nós, nem tais águas são as mesmas, estamos em uma eterna e acelerada mudança. É  como se estivéssemos nesse rio e víssemos chegar uma forte correnteza, o que faríamos?                       Devemos decidir como sobreviver nessas águas. Não podemos tomar o relógio cartesiano como base, creio que pode até funcionar, mas a correnteza do rio vem vindo e não dá para dividi-la em partes. Ela é um todo, diferente do relógio.

Ver o mundo como uma máquina pode ter sido bem funcional tempos atrás, mas essa percepção não é mais satisfatório.

Na visão mecanicista, o mundo acaba sendo uma coleção de objetos. Sendo assim, naturalmente interagem uns com os outros, mas a relação entre eles acaba sendo secundária. Uma máquina não pode funcionar bem dessa forma, pois ela não é apenas uma junção de peças, é a interação de uma com a outra. Aquilo que denominamos parte é apenas um padrão numa teia inseparável de relações, e é esse padrão e essas relações que fazem a maquina funcionar.

Às vezes, ou quase sempre, nos esquecemos de que havia um todo, a parte parece tornar-se algo enorme e que existe fora de qualquer conjunto ou contexto, mas nada está fora de nada, tudo está relacionado, tudo está em um contexto que se liga a outro nessa teia da vida.

A idéia de teia da vida, que fundamenta o livro do físico Fritjof Capra (1939), que uso como uma das fontes principais de pesquisa para essa reflexão, é muito antiga e atribuída a uma famosa carta escrita em 1854 pelo chefe Seatle ao presidente dos EUA, Franklin Pierce, quando este propôs comprar as terras dessa tribo, concedendo-lhes uma outra reserva.

Em tal discurso Chefe Seatle dá grande enfoque à idéia de que tudo na natureza está ligado. Podemos encarar então, os sistemas vivos como redes que interagem com outros sistemas vivos, dentro dessa teia. Cada organismo nesse contexto representaria um nó e cada nó, visto de perto, seria também uma rede, e assim sucessivamente.

Um modo de vermos essas redes na prática é fazendo um paralelo com a teoria educacional da inter e transdiciplinaridade.

Não é apenas o âmbito do mundo vivo que é englobado pelo conceito de redes, ele também conecta o conhecimento e o conhecer, mesmo que tirando deste, fundamentos firmes, como nos mostra Louis Pasteur (1822-1895): “ a ciência avança por meio de respostas provisórias”[1], encontrando-se apoiada em amarras dentro da própria rede, mas sem que uma parte tenha maior importância que a outra. Em outras palavras:

A teia da vida consiste em redes dentro de redes. Em cada escala, sob estreito e minucioso exame, os nodos da rede se revelam como redes menores. Tendemos a arranjar esses sistemas, todos eles aninhados dentro de sistemas maiores, num sistema hierárquico colocando os maiores acima dos menores, á maneira de uma pirâmide. Mas isso é uma projeção humana. Na natureza, não há “acima” ou “abaixo”, e não há hierarquias. Há somente redes aninhadas dentro de outras redes. (CAPRA, 1996, p. 45).

Como seríamos, como seria nossa sociedade, nossa história, se nossa forma cultural de encarar o mundo não fosse tão unilateral, se não olhássemos apenas para frente, se conseguíssemos olhar em volta, se conseguíssemos olhar o que há ao nosso redor verdadeiramente dispostos a ver o que nos cerca? Teríamos chegado aonde chegamos? E aonde chegamos, afinal?

Pensar algo assim implica pensar o problema do ensino e da educação e refletir sobre a pedagogia da resposta e a pedagogia da pergunta. Qual nos é mais proveitosa e por que? Sei, sim, que o ser humano é um ser que anseia por respostas, mas o que se faz nas escolas não é apenas uma tentativa de respondê-las. É também uma forma _ não sei se proposital ou não_ de minar a faculdade mais comum e imprescindível no ser humano: a curiosidade.

O saber em redes, utilizando a metáfora da teia da vida, da sabedoria dos peles vermelhas, como Chefe Seatle, nos é muito mais válida hoje do que as metáforas mecanicistas sobre edificações e construção do conhecimento, sobre bases sólidas e alicerces firmes. O alicerce usado foi a física clássica, que sofreu através dos tempos um grande abalo. Einstein (1879-1955), em sua autobiografia, descreve muito bem essa sensação: “Foi como se o solo fosse puxado de debaixo dos pés, sem nenhum fundamento firme a vista em lugar algum sobre o qual se pudesse edificar”.

(apud CAPRA, 1996, p. 48).

Essa forma do saber, o conhecimento em forma de Teia, em forma de redes interligadas é o novo paradigma da inter e transdisciplinaridade na Educação. A escola é o campo certo e fértil para que essa semente seja plantada.

Tal paradigma nos leva à necessidade de cabeças abertas para o diálogo, para ouvir o outro, as outras áreas do conhecimento. E também á necessidade de abrir os olhos, para enxergarmos os fios da teia da vida que passam por nós e que, desatentos, nem percebemos. Também não percebemos a rede de conexões que somos, repleta de nós internos que, por sua vez são também redes.

Dessa forma, devemos lembrar da inscrição do oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Através do olhar para dentro de si, poderemos encontrar a rede da teia da vida, para que com ela nos familiarizemos. Poderemos então, melhor entender a inter e transdisciplinaridade por essa idéia de rede que somos nós mesmos.

 

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1 Comentário em “Resenha – A Teia da Vida”


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Carla Almeida Alves em 05.10.2019 às 11:38 Responder

PARABÉNS sempre,amei estas leituras.


 

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