Resenha – A torre acima do véu
por Patricia
em 18/11/14

Nota:

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Já conheço o trabalho de Roberta Spindler, graças a Contos de Meigan – livro indicado pela Gleice do Murmúrios Pessoais. Devorei as mais de 600 páginas do livro, escrito por Roberta junto com Oriana Comesanha, feliz por ter encontrado uma obra nacional que podia competir tão bem no quesito fantasia com qualquer outro. Mais, um livro que tinha em seu cerne uma personagem principal forte e sem os famosos mimimis que muitos relacionam a personagens femininas. Eu fiquei encantada e, desde então, tenho seguido a carreira da autora. Foi assim que fiquei sabendo de seu mais recente trabalho, “A Torre acima do véu”,  lançado pela Giz Editorial.

Vamos ao cenário: estamos falando de uma distopia. Há algumas décadas, uma névoa surgiu do nada e envolveu o mundo todo. Aqueles que eram tocados pela curiosa névoa morriam na hora e uma morte dolorida. Porém, descobriu-se que algumas pessoas haviam sobrevivido, mas algo estava diferente. Verdadeiros zumbis, essas pessoas haviam sofrido uma alteração e pareciam mais animais do que humanos. Ficaram conhecidos como Sombras. Para escapar, os humanos sobreviventes construíram torres altas o suficiente para mantê-los afastados da névoa e dos Sombras.

Agora, as pessoas viviam afastadas de tudo o que um dia conheceram e precisavam se reorganizar em estruturas sociais que, de alguma forma, fossem plausíveis. Como era de se esperar, o dinheiro desapareceu e tudo virou moeda de troca – armas, remédio, computadores e etc.

Rebecca é uma saltadora e trabalha com seu pai, Lion, e seu irmão, Edu caçando esses tesouros que depois são trocados por outros itens de necessidade. Beca, como é conhecida, é nossa personagem principal.

As coisas esquentam quando um acidente faz com Edu caia na névoa Beca e Lion farão o possível para resgatá-lo, mesmo que isso signifique ir contra as regras da Torre e aliar-se a inimigos conhecidos. Começa um planejamento intenso para entrar no véu e, contra toda a razão, tentar resgatar um prisioneiro dos terríveis Sombras.

O livro é todo centrado no eixo de poder da Torre e enquanto muitos seguem cegamente esse poder, outros o ignoram totalmente. A humanidade, como sempre, recria estruturas de poder para tentar manter uma ordem que possa, ao mínimo, reconhecer. Essa estrutura dá credibilidade para o mundo distópico que Roberta Spindler criou. Claramente, a autora conhece bem o gênero.

Mas não é apenas isso. Ainda que a idéia original seja simples, ela consegue criar elementos que incorporam mais ação, mistério e intensidade à trama. Não tem romances adolescentes, não tem drama desnecessário, é um livro adulto sobre um tema muito interessante (eu adoro distopias) e que pode ser interpretado de diversas maneiras. No centro de tudo, para mim, está a loucura de alguns pelo poder a ponto de tomarem atitudes drásticas e a importância de laços afetivos em um mundo destruído.

O livro oferece uma leitura divertida, flui que é uma beleza, mas também pode trazer reflexões intensas. Pessoalmente, esses tipos de livros são meus preferidos. Ação por ação não me interessa muito, mas com mais conteúdo por trás, já me anima bem mais. Além disso, os personagens criados são bons, multifacetados e as criaturas que aparecem também são interessantes e plausíveis – nada foi colocado aqui por capricho. Tudo faz sentido. Isso era o que eu já esperava da autora e ela entregou com plena potência. Aliás, isso parece ser uma – ótima – tendência com a autora. Suas histórias têm camadas, profundidade, não são apenas enredos planejados pelo simples motivo de entreter.

Fiquei curiosa para saber mais do passado de personagens como Emir (o manda-chuva da Torre) e Lion porque gostei muito desses personagens, com todos os seus defeitos que os tornam tão humanos. Ou seja, mais uma questão de curiosidade minha do que de problemas no enredo de verdade. E vejo isso como um ponto positivo. Spindler conseguiu despertar aquela voz que reclama quando o livro termina.

Depois de ler dois livros da autora, acho que vale a recomendação de seu trabalho. Além de ser brasileiríssima, de Belém do Pará, ela decidiu escrever um gênero permeado por homens e, com louvor, consegue ser melhor que muitos. O livro tem edição simples, sem frufrus. A autora tem outros livros lançados que ainda não li, mas já estou abrindo espaço na estante.

4 doses de café brasileirinho daqueles fortes!

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1 Comentário em “Resenha – A torre acima do véu”


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Giselly em 22.05.2019 às 12:28 Responder

Queria tanto uma continuação…


 

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