Resenha – A universidade desconhecida
por Juliana Costa Cunha
em 20/12/21

Nota:

“Na formação de todo escritor,

existe uma universidade desconhecida que guia seus passos.

Ela não tem sede fixa, é uma universidade móvel,

mas comum a todos.”

No período entre 1978 e 1998, Roberto Bolaño começou a reunir seus poemas. Os mesmos só foram publicados em 2007, com autorização da família, a partir de fotocópias de manuscritos que foram datilografados e após a morte do autor, que ocorreu em 2003 em função de complicações hepáticas. Finalmente, este ano, esse livro chega até nós em edição bilíngue e lançado pela Companhia das Letras.

Bolaño é amplamente reconhecido por seus romances, o que de alguma forma deixou seus poemas em segundo plano no meio literário, mesmo que esta escrita tenha se dado de forma constante ao longo de toda sua vida. A poesia de Bolaño nos remete à solidão, ao exílio e à morte e a duras críticas a sua própria escrita.

“A poesia entra num sonho

como um mergulhador num lago.

A poesia, mais corajosa que ninguém,

entra e cai

a prumo

num lago infinito como o Loch Ness

ou turvo e infausto como o lago Balatón”

Diante da iminência da morte e da vida que seguia seu fluxo, não é incomum que o livro seja inconstante. Há poemas que me fizeram ler e reler seus versos por diversas vezes, ao me deparar com eles e me emocionar. Outros que me pareceram rascunhos ainda por serem concluídos. E há, também, textos que fogem da tradicional norma poética, trazendo questionamentos e colocando o autor, mais uma vez, como inovador em sua arte. É possível que estes textos sejam tão potentes por que neles nos deparamos com o Bolaño personagem em sua obra. Ou seu alter ego, já conhecido daquelas pessoas que já leram alguma obra do autor, em que a vida do escritor é o ponto alto de sua narrativa. Outra impressão que tive ao ler esses textos em especial, é que os mesmos parecem exercícios para obras futuras. Anotações aleatórias e divagações.

Este é também um livro nômade, tal qual o autor, que era um ser errante. E, nesse caso, suas poesias passeiam pelas cidades e paisagem nas quais o autor esteve seja de passagem, ou morando por algum tempo, e que sempre estiveram presentes em sua escrita. Na poesia não seria diferente.

“Escrevendo poesia no país dos imbecis.
Escrevendo com meu filho no colo.
Escrevendo até a noite cair
com um estrondo de mil demônios.

Os demônios que me levarão ao inferno,

mas escrevendo”.

Foi uma grata surpresa conhecer a poesia deste autor que me instiga com sua prosa labiríntica. Fico feliz em observar que na sua poesia a narrativa multifacetada, a ironia e os questionamentos políticos e existenciais permanecem e me emocionaram em vários momentos dessa leitura.

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Livro enviado pela editora

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