Resenha – A viagem do tigre
por Patricia
em 17/06/15

Nota:

images

A viagem do tigre é o 3o livro da série A maldição do tigre. Já falei sobre o primeiro e o segundo livro aqui no Poderoso. O segundo livro foi melhor que o primeiro graças às cenas de ação que achei interessantes. O terceiro livro, porém, caiu na rede da mesmice do YA e voltou ao pior momento Crepúsculo possível.

Depois de retornarem do combate com Lokesh, Kelsey e os tigres Ren e Kishan ainda precisam quebrar 12 horas da maldição. Os príncipes indianos só conseguem ficar na forma de homem por metade do dia. Por isso, assim que retornam, eles começam a pesquisar onde estaria o próximo amuleto que os ajudaria a quebrar mais uma parte da maldição – cada amuleto dá conta de 6 horas no dia.

O Sr. Kadam descobre uma nova profecia que envolve dragões, tubarões e uma cidade perdida debaixo d’água. Temos, porém, um drama ‘muito sério’: Ren não se recorda de Kelsey. Nada. Nem um tiquinho. Kelsey, claro, está chateadíssima com a situação. O pior é que toda vez que ela tenta se aproximar dele, Ren sente uma dor física insuportável. Ele está disposto a testar sua resistência e, por algumas páginas, parece que vai funcionar. Kelsey e Ren engatam novamente o namorico por algum tempo. Logo, Ren muda de idéia e Kelsey se aproxima do plano B, Kishan.

Para ficar ainda mais legal, Ren, que é absurdamente ridículo, faz coisas como escolher o maiô que ela usa porque ele acha que ela não tem bom gosto e porque ele quer controlar o quanto ela mostra de pele. Aliás, acompanhem a cena que ocorre quando Kelsey decide cortar o cabelo:

Fiz sombra com a mão e ergui os olhos. Ren olhava cheio de raiva para mim. Os punhos dele estavam fechados ao lado do corpo. Pousei o livro e perguntei:

– Algum problema? O que aconteceu?

– O que aconteceu? O que aconteceu? Você cortou o cabelo!

– Cortei sim. E daí?

– E daí? – repetiu ele, incrédulo. – Está tão curto que você nem pode mais fazer trança!

Passei os dedos no cabelo e puxei um cacho para a frente a fim de examiná-lo.

– Hum…pior que é. Deve dar para fazer trancinhas finas, mas não faz diferença. Eu gosto assim!

– Bom, eu não gosto!

Franzi a testa para ele.

– Por que exatamente você está aborrecido?

– Não acredito que você simplesmente foi lá e cortou seu cabelo sem contar para….ninguém.

Nesse ponto, eu juro que já estava duvidando se talvez terapia iria ajudar. Não é só controlar o que ela usa, quando, onde, na frente de quem…nem mesmo o próprio cabelo ela tem o direito de cortar sem uma ceninha babaca desse tipo. Cansativo e, francamente, perturbador.

Na página 200 eu já estava cogitando em desistir da série toda. Porém, subestimei a habilidade da autora para criar frases de impacto. Mais pérolas me esperavam:

– Mas lhe digo agora, mocinha: sem o seu amor, a vida não é nada. Sem o seu par, você fica totalmente sozinha.

O que, se não me engano, é exatamente o que queremos que todos os adolescentes pensem: “esqueçam família e amigos. Sem um par, você não vale nada”, não é?! Principalmente as meninas. Realmente é crucial dizer para elas que nada é mais importante do que ter um amor, um par. Se ele for controlador e ciumento, é porque ele te ama. Junte todos esses “conselhos” e características dos personagens principais e temos a receita perfeita para aqueles relacionamentos que acabam no Datena.

Mais uma? Quando percebe – depois de uma das aventuras – que poderia ficar aleijada, Kelsey lança:

– Como poderia casar e ter filhos? Eu não ia poder correr atrás das crianças pela casa. Meu marido teria vergonha de mim. Isso se eu conseguisse convencer alguém a casar comigo.

Vou deixar essa para vocês porque, sinceramente, não tenho mais sarcasmo sobrando. Para mim faz todo sentido eu ter gostado mais do 2o livro do que do 1o e ter vontade de jogar esse 3o pela janela: Ren é péssimo e ele mal apareceu no 2o. Não só não consegui ver nele tudo isso aí que a autora tenta mostrar como o achei patético e mimado. Além de carente nível máximo. Deprimente esse ser um dos protagonistas de um livro para jovens. Se eu conhecesse esse cara um dia, ele seria motivo de várias conversas e risadas no bar com minhas amigas.

– E aí teve aquela vez que ele tentou me dizer para não cortar o cabelo…HAHAHAHAHAHHAHAHAHA

Na resenha do primeiro livro – A maldição do tigre – comentei: “E, claro, Kelsey se apaixona por Dihren porque ele é um príncipe indiano e lindo de morrer. […] E ela acredita que é platônico, porque, quem olharia para ela? Por que um homem tãooo lindo não está namorando modelos e etc? É…onde será que já vimos isso antes? Seria…em quase TODOS os livros focados no público feminino ou jovem nos últimos anos desde que Crepúsculo fez sucesso? Aliás, a autora já disse que começou a escrever os livros depois que leu a saga Crepúsculo. Para nossa sorte, Houck é melhor escritora que Meyer e construiu uma história com mais substância, mas pegou alguns “tiques” que Crepúsculo deixou na nossa literatura no que tange desenvolvimento de personagem e/ou relações amorosas.”

Estou repensando seriamente o “é melhor escritora que Meyer”. E isso não é nenhum elogio a Meyer. A barra está tão baixa aqui que até uma música da Valeska Popozuda passaria por algo mais bem escrito. Houck se perdeu tanto na própria história, e talvez no sucesso do primeiro livro, que não só seguiu à risca todos os clichês de histórias desse tipo, mas os exacerbou de tal maneira que precisei pesquisar algumas vezes a idade dos protagonistas porque achava que estava em torno de 12 anos.

E considero isso algo muito sério. “Imbecilizar” uma história, criar um romance água com açúcar só para poder escrever 100 páginas além do que é realmente necessário, é ridículo. Todo mundo já sofreu por um relacionamento de um jeito ou de outro, mas sabe o que acontece? A vida segue. O mundo gira. Vacilão roda. A fila anda.

Gostaria que os autores dessem mais crédito aos leitores jovens. Tratá-los como crianças abobadas que só leem livros quando triângulos amorosos clichês desse tipo existem é esperar muito pouco dos seus próprios leitores.

Os melhores momentos do livro são as cenas de ação em que essa lenga-lenga se torna secundária. É realmente legal ver a pesquisa do Sr. Kadam sobre os dragões, as cidades submersas e o que eles teriam que enfrentar. Se a autora tivesse se concentrado mais nisso do que em criar um triângulo amoroso padrão-chinfrim, poderíamos ter um livro divertido….com muitas páginas a menos e mais divertido.

Vou ler o 4o livro da série apenas para saber se a coisa pelo menos fecha de uma maneira menos babaca. Quero muito acreditar que esse livro foi um lapso dentro de uma história que começou com uma boa possibilidade, apesar de não estar confiante.

Postado em: Resenhas
Tags: , , ,

6 Comentários em “Resenha – A viagem do tigre”


Avatar
avaz em 06.04.2017 às 15:54 Responder

Adorei sua crítica! Reflete bem o que penso sobre esse livro. Também achei um tanto perigosamente doentia a relação amorosa desenvolvida aí. Não tive estômago para terminar de ler. Nem o envolvimento mitológico conseguiu me segurar, o que é uma pena, porque amo mitologia.

Avatar
Patricia em 06.04.2017 às 16:23 Responder

Eu peguei esses livros também porque adoro mitologia. Confesso que até hoje não consegui pegar o 4o livro. 🙁 Esse 3o realmente me deixou bem irritada…eu ia passá-los para minha irmã só que não tive coragem.

Avatar
Erica Leme em 07.04.2019 às 19:05 Responder

Nossa, sua resenha reflete exatamente o que estou pensando agora enquanto leio!
Estou na parte em que Ren ameaça demitir Nilima se ela cortar o cabelo da Kelsey acima da cintura, e as duas simplesmente concordam!!!!!
É uma cena pior que a outra, to quase jogando o livro na parede.
O Kishan era um ótimo personagem e a autora acabou com ele, transformou em um bobão! A Kelsey e Ren entao, nojo total. Aff que raiva.

Avatar
Patricia em 07.04.2019 às 20:43 Responder

Essa cena em específico ficou muito marcada para mim pelo nível de controle. Foi bem tenso continuar lendo a série…tanto que depois do 3o, eu desisti completamente. =( É uma pena. Eu gostei da ideia de ter um pano de fundo uma mitologia pouco citada na literatura à qual temos acesso. Mas essa coisa de “amor controlador” não consigo não.

Avatar
Giovana Dionisio em 30.05.2019 às 10:03 Responder

Vim parar aqui justamente por estar lendo esse livro e pensar “será que eu sou a única achando esse romance totalmente problemático?”. Eu li a saga pela primeira vez quando eu tinha de 14 pra 15 anos e lembro de achar tudo maravilhoso. Agora, com 19, eu só quero terminar logo esse livro pra poder me livrar desse protagonista doente, da mocinha muito sonsa e desse triângulo amoroso 100% desnecessário. Acho que o que me impede de jogar o livro fora é o carinho que eu criei pelo Kishan e o Sr. Kadam.

Avatar
Patricia em 01.06.2019 às 09:37 Responder

Tem muita coisa que a gente só percebe depois de um tempo e com alguma vivência mesmo. Minha preocupação maior, de verdade, é a garota de 13 anos que acha normal tudo isso e pode entrar em algum relacionamento maluco e problemático achando que é como deve ser (e nem precisa ser romântico). É triste.


 

Responder para Erica Leme





Clique para cancelar a resposta