Resenha – Adeus, Haiti
por Patricia
em 14/02/14

Nota:

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“Descobri que estava grávida no mesmo dia que a rápida perda de peso e a crônica respiração arquejante do meu pai foram diagnosticadas como fibrose pulmonar terminal.”

Essa é a frase de abertura de Adeus, Haiti. Li na livraria, fiquei chocada e interessada em ler mais (sim, porque eu leio as primeiras frases e raramente as abas internas ou a quarta capa). Segundo Thomas C. Foster em seu livro “Para ler romances como um especialista”, a frase inicial de um livro tem o poder de apresentar o autor, de amarrar o leitor e de criar expectativa ou não para o resto da história. Para Adeus, Haiti, a magia da primeira frase funcionou comigo.

Edwige Danticat nos apresenta a seu pai brevemente – um imigrante haitiano que foi tentar a sorte nos Estados Unidos basicamente com a roupa do corpo e a vontade de ter uma vida melhor. Deixou para trás os dois filhos mais velhos por não poder cuidar deles enquanto não tivesse estrutura financeira. Edwige e seu irmão ficaram no Haiti por mais de 10 anos antes que pudessem juntar-se a seus pais nos Estados Unidos.

Eles ficaram com seus tios – um pastor e uma dona de casa. Ela nos conta um pouco sobre esse período enquanto aproveita para apresentar como pano de fundo a incrivelmente instável vida política do país. Golpes militares consecutivos, presidentes depostos, assassinatos políticos eram usuais no Haiti que Edwige conheceu. (O país não está totalmente estável. Em 2004, a ONU autorizou a criação de uma missão estabilizadora que deveria instaurar um governo e manter a democracia, da melhor maneira possível. Essa missão, inclusive, foi liderada pelo Brasil. As últimas eleições do país ocorreram em 2011).

A vida nos Estados Unidos foi difícil, a pobreza estava sempre rondando mas ainda era muito melhor do que a alternativa de voltar para o Haiti para viver. Não havia oportunidades, empregos decentes e não se podia esperar nada do Governo porque o presidente da vez estava preocupado demais tentando manter a própria cabeça presa no pescoço.

Seu tio, que através de sua Igreja tentava construir uma comunidade mais justa, viu o povo virar-se contra ele por causa da milícia local que o acusava de compactuar com os estrangeiros e sua “limpeza” étnica. Ele teve que fugir às pressas da região sob pena de ser queimado vido e depois degolado. Tentou, então, pedir asilo nos Estados Unidos só para ser preso em Krome – a casa de detenção para estrangeiros em Miami em um caso, no mínimo gritante, de erro da polícia. (Aliás, os fundadores da Renascer quando foram pegos com dinheiro escondido tentando entrar nos EUA foram para essa prisão) Mas o caso do tio de Edwige foi bem grave pois, como estava muito doente, ele não podia ficar sem seus remédios. A polícia recusou-se a medicá-lo achando que era algum tipo de golpe.

A família entrou em um frenesi desesperado: por um lado, o tio idoso com certeza não sobreviveria à prisão; do outro, o pai estava em estado cada vez pior. Os dois irmãos pareciam que estavam no fim e não conseguiriam se despedir um do outro.

Adeus, Haiti é um livro realmente bom. Edwiges Danticat nos fala das dores daqueles que partem e daqueles que ficam unindo duas histórias poderosas que poderiam acontecer com famílias de qualquer lugar. Mas somando tudo isso ao passado e ao que enfrentaram em sua juventude, a história ganha ainda mais força. É um livro que tem como pano de fundo o Haiti mas não vai se aprofundar na História do país.

O livro é curto e é possível ler todas as suas 230 páginas em uma sentada só. A escrita de Danticat é leve e flui muito bem. O leitor é carregado na história quase sem perceber, com  leveza apesar do tema tão forte. Alternar as mortes que via na família com a vida nova que surgia em seu ventre deixou a história ainda mais interessante porque é um daqueles velhos paradoxos. Parafraseado Cazuza: a vida não pára.

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