Resenha – Água Viva
por Juliana Costa Cunha
em 22/03/21

Nota:

Livro publicado em 1973. Nele há um “eu” feminino que escreve a um “tu” supostamente masculino, entre o delírio, a confissão e a sedução. Nessa escrita nós vamos sendo guiadas por questões do humano e do não humano. Aqui a natureza – animal e vegetal, as palavras e as coisas ganham dimensões diversas e se fundem.

Vamos lendo o livro e percebendo que estas dimensões e fusões parecem querer dar conta do “eu” no mundo. E este “eu” está preocupada em percebe e capturar o “instante já”. O tempo que passa, que fica e que já não é mais à medida que escrevo está frase é mote das divagações da narradora deste livro.

A narradora – seria ela a própria Clarice? – está em busca de si mesma no presente e no passado, tentando vislumbrar um futuro. O que a move é o “instante já”. E, a cada “instante já”, mergulhamos nas incertezas do “vir a ser” e no “apesar de” tão presentes na obra da escritora.

Outras divagações perpassam pela questão do que ela denonima de “It’. O isto/aquilo das coisas. A captura do mais profundo de cada uma de nós. O Deus, para ela, estaria neste lugar. No imponderável. Naquilo que não se consegue definir ou pegar. Apenas sentir.

Há quem diga que Água Viva é o livro mais autobiográfico da autora. Outras pessoas acham que são páginas de seus diários e que o “eu” e o “tu” são a própria Clarice. Eu o leio como um fluxo de consciência. E ao mesmo tempo me deparo com páginas que tem início, meio e fim. Me aproximo mais daquelas pessoas que leem Água viva como um longo poema em prosa, no qual a autora me dá dicas de como lê-la – seguindo o fluxo, dando pausas, não tentando compreender tudo, rindo com algumas passagens e me emocionando em muitas outras.

Água Viva poderia ter se chamado “Atrás do pensamento: monólogo com a vida”. Ou, ainda, “Objeto gritante”. Dois títulos que chegaram a ser pensados para o texto que, embora eu ache que digam muito sobre ele, não o traduzem em sua íntegra.

Animal marinho, com forma parecida à de um sino (uma referência ao sagrado?) e que possui vários tentáculos (referência à vida e seus vários caminhos?), Água viva é, ainda, um animal que possui uma única cavidade que funciona como boca e ânus (a junção do sagrado e do profano?). Não menos importante, é bom lembrar que a água viva queima, mas vive no mar.

Água viva me parece que celebra a vida, em seus mínimos instantes, e tudo o que teima em ser – livre e alegre, apesar de.

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