Resenha – Ainda Estou Aqui
por Thiago
em 06/04/16

Nota:

ainda estou aqui

 

Lançado em 15/08/2015, mais de trinta anos depois do grande sucesso “Feliz ano velho” (resenhado aqui, aqui e aqui), Marcelo Rubens Paiva  volta a nos contar sobre sua vida em “Ainda estou aqui”. Admiro muito autores que conseguem ter a coragem de expor questões tão pessoais, de maneira tão explícita, como Marcelo faz. Em “Feliz ano velho” nos deparamos com a história de como o autor se tornou tetraplégico, agora ele nos conta outro grande trauma em sua vida, o desaparecimento de seu pai, o deputado federal Rubens Paiva, cassado no golpe militar de 1964, torturado e morto pelos militares em 1971. Marcelo era uma criança ainda, tinha apenas 11 anos.

 

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No ano de 2014 essa história pôde realmente ser contada. Foi quando a Comissão Nacional da Verdade conseguiu “explicar” o caso. O deputado não resistiu as torturas e morreu no segundo dia. O interessante desta obra é que ela não é o que pretende ser. O trazer a tona a história da morte de seu pai acabou por ser um momento catártico da relação de Marcelo com sua mãe, Eunice Paiva, personagem de grande importância na luta contra a ditadura militar brasileira. Eunice ainda é viva e sofre de Alzheimer. De certa maneira temos em mãos não apenas um livro que retrata uma época trágica da história brasileira, mas uma biografia de Eunice, uma mulher da alta sociedade que resolveu lutar contra a ditadura e buscar a verdade a respeito do paradeiro de seu marido. Suspeito de manter ligações com clandestinos do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1971 Rubens foi preso. Saiu escoltado de casa, no dia 20 de janeiro daquele ano. Nunca mais foi visto. A versão oficial dos militares é de que ele teria fugido com a ajuda dos comunistas. Eunice enfrentou militares de quem cobrou dados sobre o que acontecera ao marido. Esteve dentro do Palácio do Planalto em audiência com o ministro da Justiça do presidente general Médici – Alfredo Buzaid – que lhe garantiu que Rubens Paiva estaria de volta em casa dentro de poucos dias. Era mentira e o ministro já sabia. Eunice descobriu depois e seguiu na luta contra o regime. Denunciou o crime contra seu marido em entrevistas à mídia internacional numa época em que esse tipo de atitude levava à cadeia – ela já estivera 15 dias presa no DOI-CODI, levada no mesmo dia em que levaram seu marido de casa. Essa é a história de uma mulher que lutou pela verdade. Uma mulher que como Marcelo diz, “era um dondoca”. Em uma época onde o machismo era gigantescamente maior que é hoje, Eunice lutou pela democracia, pela liberdade e pela verdade.

 

eunice rubens paiva

 

Hoje este livro se mostra extremamente importante. Ele serve para nos mostrar a ditadura e para nos trazer a história e a memória de uma família: os Paiva. Gostaria aqui de pedir algo, acho que nunca fiz isso em nenhum texto neste site, mas vamos lá: quero pedir um favor a você que em 2016 acredita, mesmo que vagamente, que a volta da ditadura militar seria algo benéfico para o Brasil e para os brasileiros de um modo geral, para você que crê estar sendo patriota quando pede que os homens de farda tomem novamente o estado e instaurem a terceira ditadura deste país. Enfim, meu pedido é pra que leia este livro, mas leia de mente e coração abertos, num exercício de empatia com os Paiva. Foram dadas apenas 3 canequinhas pois apesar da história ser boa e valer a pena, não sou muito fã da escrita do autor e isso não deixou tudo melhor como poderia. Boa leitura a todos!

Obs: obrigado Eunice e obrigado Marcelo por nos contar esta história.

 

marcelo rubesn paiva

 

*** O livro foi enviado pela editora

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