Resenha – Aldeia dos mortos
por Juliana Costa Cunha
em 10/06/20

Nota:

Aldeia dos mortos, da escritora Adriana Vieira Lomar, foi lançado em 2020 pela Editora Patuá. Adriana é Carioca, mas tem família no estado de Alagoas, no nordeste brasileiro e, por isso, a história tem um pezinho nos causos nordestinos, referências ao poeta Manoel Bandeira e também a Lampião.

A Aldeia onde se passa a história é uma daquelas cidadezinhas de interior, onde todas as pessoas se conhecem e dão conta umas das vidas das outras. Mas ao contrário de ser narrada por alguma dessas personagens que habitam a Aldeia, quem nos conta a história é alguém que ainda está por chegar (ou aparentemente está). Toda a narrativa do livro é feita por um embrião. Isso, um ser em formação.

Este embrião, que tem um tamanho de um gergelim quando a história se inicia, vai nos apresentando as personagens e suas histórias, através do que sente e ouve e dos cheiros e sabores que chegam até ele (ou ela) através de sua mãe. Aquela que o carrega em sua casa. A morada em que está se desenvolvendo, que tem um cordão que o mantém seguro e pelo qual recebe o alimento e que, com o passar dos dias vai ficando pequena.

Este embrião começa a perceber a tristeza de sua mãe em função de um acontecimento específico, decide vagar pela cidade, passando pela casa de sua avó materna para descobrir o que aconteceu e tentar impedi-lo. Assim somos inseridas no casarão da matriarca da família, a incrível Vó do Caco. Uma personagem de uma força ímpar, que sabe de tudo o que acontece na família e com as pessoas próximas a ela. Que tem doçura em observar a vida, apesar dos tantos sofrimentos já vividos. Vó do Caco usa apenas preto e vive no porão. Troca o dia pela noite na companhia de seu gato inseparável chamado Matias (personagem importante também). Essa personagem me remeteu muito a Ursula Iguaran, a matriarca de Cem anos de Solidão.

A família de Vó do Caco é matriarcal e ao longo da história seus filhos vão morrendo, ficando apenas suas filhas. Em dado momento é inserida na narrativa um contexto de medo e repressão e passamos a entender que a ditadura foi instaurada no país. O embrião, entre seu crescimento na casa que o protege e nas suas escapadas pela cidade, passa por algumas aventuras e vai se desenvolvendo.

Além das personagens já citadas, outra grande personagem no livro é a paisagem. Da casa, da cidade, dos jardins, do porão. É uma narrativa muito visual e diria até, olfativa e sonora, como nos trechos a seguir: “o cheiro do tacho da laranja caramelizada da cor do sol que ainda não brotara de vez. Do pão fresquinho e do café.” Ou: “O vento bate e traz a fragrância das amoras que, reluzentes, dão em cachos no quintal.” A amoreira do quintal da casa, inclusive, é uma personagem significativa no enredo.

O livro, em sua última frase, pode te dar a resposta para uma história narrada por um feto. Ou, você pode também ler esta última frase e considerar que ela faz parte de toda a fantasia do livro.

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Livro enviado pela autora

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