Resenha – Alguém come centopeias gigantes?
por Bruno Lisboa
em 17/04/17

Nota:

 

A RE/Search é uma das revistas mais anarquistas e importantes do últimos tempos. E claro: quase ninguém a conhece. Isto, em muito, se deve a escolha corajosa de dar voz e ouvidos a artistas outsiders que souberam (cada um a sua maneira) revolucionar o mundo como conhecemos. Criada nos anos 80 pelo editor V. Vale, a revista nascera dos resquícios do fanzine Search & Destroy, um dos pioneiros da seara punk rock, que fugia diretamente do glamour e do apelo pop de publicações como a Rolling Stone.

Lançado no Brasil via Edições Ideal, Alguém come centopeias gigantes? é uma compilação de trechos de algumas das matérias publicadas em ambas as publicações. Sob a curadoria do reverendo Fábio Massari (ex-VJ da MTV) e com tradução de Alexandre Matias (do ótimo site Trabalho Sujo), o inspirador livro resgata quinze entrevistas antológicas. Todas são conduzidas com maestria e embasamento, fazendo com que rompam com o fatídico formato mínimo habitual do gênero que é visualizado hoje em dia em publicações diversas.

Difícil é pontuar quais são os momentos de maior destaque, mas são as conversas acima da média proferidas por mestres como Jello Biafra (Dead Kennedys), Devo, Paul Simonon (The Clash), Patti Smith, Lydia Lunch que abordam com propriedade a cena punk (captada no olho do furacão), que ainda iria amadurecer e transformar-se num grande veículo de manifestação e mobilização social, são de encher os olhos.

A longa entrevista (de 50 páginas!!) com o duo de rockabilly The Cramps sobre colecionismo e artistas obscuros; o multifacetado Timothy Leary (o inventor do LSD) e o poeta William S. Burroughs (captado em conversa meses antes de falecer) falando sobre drogas e a morte da cultura hippie; o comediante Paul Krassner sobre a arte perdida da trolagem; o escritor e diretor John Waters abordando de maneira incisiva sobre o cinema independente e as vicissitudes da sociedade moderna; a carreira do músico e escritor Henry Rollins (Black Flag) sendo desnudada e o poeta Lawrence Ferlinghetti falando sobre o movimento beatnik (que levou ao estrelato escritores como  Jack Kerouac) e o preço da fama também se destacam.

Instigante, revelador e atual Alguém come centopeias gigantes? é leitura obrigatória para aqueles que acreditam no poder transformador das artes e a reflexão que a mesma propõem, em qualquer esfera. Ainda mais neste cenário atual onde a sociedade teima em regredir, permanecendo careta e imóvel ante as agruras da modernidade.

Postado em: Resenhas
Tags: , , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Alguém come centopeias gigantes?”


 

Comentar