Resenha – Anarquistas, graças a Deus
por Patricia
em 07/07/14

Nota:

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Em Anarquistas, Graças a Deus, Zélia Gattai nos conta causos de sua infância em uma divertida biografia. Seus pais, italianos e anarquistas, escolheram morar em São Paulo, onde a comunidade italiana crescia e se assentava. Mais precisamente, na Consolação onde ficavam os imigrantes pobres – ao lado da Paulista, onde ficavam os ricos. (Nada mudou desde então, portanto. rs)

A adaptação dos Gattai no Brasil se deu como que uma amálgama: sua mãe, Dona Angelina, não aprendeu o português direito e passou a vida inventando algumas expressões que não faziam sentido nem em uma língua, nem em outra. Gostava de jogo do bicho e interpretava os sonhos dos filhos – cinco no total – para saber em qual bicho jogar. Invariavelmente acertava. Defensora árdua dos animais, aceitava todos que entravam na casa pelo portão que não fechava – inclusive um bode que acabou causando certos problemas com seu apetite infinito.

Seu pai era mecânico e um italiano típico. Um dos causos mais engraçados é quando Zélia conta que seu pai  – que era responsável por registrar os filhos no cartório – às vezes, mudava os nomes por conta própria. O nome dos filhos tão bem pensados e definidos pela mãe eram alterados de última hora pelo pai que tinha um lampejo de inspiração e decidia o novo nome. Caso típico: quando o primeiro filho nasceu, a mãe escolheu o nome Elson. Na hora de registrar o filho, o sr. Ernesto decidiu que Elson não era nome de homem o suficiente e mudou para Mário. A mãe odiou, mas já estava feito.

Me diverti com essas histórias porque meu avô fez o mesmo com a minha mãe – que reclama até hoje do nome (algo que entretém muito o resto da família).

A parte mais interessante do livro todo para mim, no entanto, é a história da Colônia Cecília (uma colônia onde foi criada uma sociedade anarquista experimental). Há algum tempo me interesso pelo assunto, mas ainda estou apenas começando a ler mais sobre. Zélia Gattai nos conta a história de seu avô – anarquista fervoroso que ficou entusiasmado com o experimento da Colônia nesse país tão distante da Itália, mas que prometia muito. Fato interessante número 1: o terreno para a Colônia foi cedido por D.Pedro II – um imperador que tinha um viés republicano à frente da época. D. Pedro II prometeu, também, apoio financeiro ao empreendimento. Fato interessante número 2: o avô de Zélia foi um dos primeiros voluntários a esse experimento. Fez as malas com a esposa e os cinco filhos e embarcou para o Brasil para viver a experiência de uma comunidade que acreditava que poderia ser mais justa e igualitária.

A Colônia acabou não dando muito certo e os Gattai tiveram que sair sem nada. Os avós por parte de mãe também sofreram absurdamente. Vieram ao Brasil graças a promessas de terra e riquezas (o que aconteceu com muitos imigrantes na época). Quando chegaram, viram que não existia nada daquilo e foram obrigados a aceitar empregos que beiravam a escravidão onde crianças e adultos cumpriam o mesmo horário e poderiam ser surrados a qualquer momento. Foram expulsos quando seu avô impediu que um negro amarrado em uma árvore fosse chicoteado. Pensando bem, era a escravidão em sua forma mais pura.

Esses são alguns dos momentos mais sérios do livro,mas no geral, a leitura é bem leve com momentos graciosos e engraçados. Zélia é uma boa contadora de histórias e tem um humor simples e agradável. Mais do que apenas uma biografia, com um estilo “crônicas da vida cotidiana”, Zélia nos apresenta uma divertida radiografia da vida dos imigrantes da década de 20-30. O cinema era mudo, as ruas eram de terra, os imigrantes vinham de todo lugar e a vida parecia simples.

Zélia Gattai era esposa de Jorge Amado e parece que foi o renomado autor que a incentivou a escrever este livro. Felizmente! Para quem gosta de relatos de época, tem interesse em conhecer mais sobre a São Paulo daqueles tempos ou vem de uma família imigrante italiana que passou por mals bocados, o livro é um prato cheio de macarronada com molho extra que dá vontade de repetir.

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4 Comentários em “Resenha – Anarquistas, graças a Deus”


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andre em 13.11.2014 às 08:01 Responder

ótima resenha

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Rodrigo em 14.01.2015 às 09:08 Responder

Uma história marcante mesmo!
Lembro quando o seriado passou pela primeira vez em 1984, depois no final de 1985.
Há alguns anos, comprei o DVD: e confesso que lutei muito por tal; não passavam na TV o seriado – era complicado mesmo.
A história em si seria meio chata/isso de POLÍTICA e REBELIÕES_só que a série passa coisas tocantes. Além de bem feita.
E até gostaria de saber por onde andam alguns dos artistas.

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Rodrigo em 14.01.2015 às 09:09 Responder

… confesso que nem sabia de alguns detalhes do conto abordados acima!

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Fg em 26.11.2015 às 22:13 Responder

Imaginei que não seria bom mas é realmente uma história marcante


 

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